Dedico a minha mãe que no dia 17 desse mês cumpriu mais um ano...é o tempo...
É a passagem do tempo, aquele que não deixa possibilidades para escapar e, por isso, insisto em pensar nele e quanto mais penso, mais me aproximo da sua crueldade.
O tempo é meu e eu não quero ser dele, mas ele me prende e me sufoca na sua vastidão infinita.
Te pergunto tempo: Quando deixará de pôr diante da minha razão que és tu o grande senhor do mundo?
Não há fortaleza que te supere nem pedidos que te parem porque és o incontrolável contador de histórias e o porto onde os homens bucam as suas certezas.
Olho para ti e deixo contigo a minha vivência jamais vivida na sua totalidade.
Me jogo na tua indecisão que nada mais é do que a minha própria indecisão.
Tempo de ser mulher, tempo para ser mulher e conhecer no meu corpo o suor que escorre como lágrimas de um homem que lamenta a perda da sua juvenil vivacidade. Me vejo em ti...
Tudo em ti é fuga e quero partir contigo, mas te sinto egoísta, livre e forte, tudo o que o homem pensou um dia ser.
Tempo, aquele que está distante, aquele que jamais poderei guardar comigo, no entanto, tu és aquele que molda o meu corpo e que faz crescer em mim a obsessão por uma liberdade solitária. Mas ao invés de me acolher, tu me rejeitas, talvez, por eu ser a que clama por ti com a dignidade de uma aprendiz da escrita.
Por quê esse querer absurdo ou esse absurdo querer?
Porque sou sonhadora e a vida não é vida sem sonho.
Sonhar é ter nas mãos tudo e se deixar querer mais do que cabe nelas; sonhar é deixar falar a voz silenciosa que se esconde em algum lugar que se encontra não se sabe onde; sonhar é amar o que nunca se viu e nem se verá; sonhar é ouvir uma música e pensar que é simples, que basta ter papel e caneta para lhe fazer completa e plena; sonhar é acreditar que o mundo pertence a uma só pessoa; sonhar é aceitar que tudo se faz quando se encontra a pessoa justa; sonhar é querer ser feliz mais que 24 horas; sonhar é tudo isso e não é nada...
Ser sonhadora é sinônimo de ser humana e ser humana implica ter a consciência de que a vida se cumpre em ti...Tempo...Um tempo que se apresenta diante de mim num mistério indizível e total, que me possui num só abrir e fechar dos olhos, que me marca a pele, deixando-a flácida e marcada pelas rugas que me preenchem a face, no entanto, só me sinto viva em ti. Por isso, como seria se num belo dia, carregado de névoa e quase invisível, tu resolvesse se ausentar?
Será que tu serias egoísta ao ponto de anular tudo?
Tempo, tempo de todos e de ninguém...
Quero por um minuto te sentir inteiro, sem segredos e sem medos, para saber qual a forma mais certa para conceber aquilo que se coloca diante dos meus olhos.
Te suplico tempo, me faz aceitar os teus sinais que chegam na neblina que preenche a paisagem desse lugar cada manhã. Me permita viver uma vida movida pela energia que sai dos meus sonhos e que os meus desejos sejam os teus próprios desejos e que a minha pele possa retratar a leveza estética de uma obra talhada para a sua mais perfeita explosão.
Não me abandone antes do fim, ao contrário, me dê ainda mais tempo antes de lá chegar, para que eu possa mergulhar ainda em ti, sempre e cada vez mais, quero me jogar para ti e me sentir absorvida por aquilo que tu escondes para além do que se pode sentir.
“Ti prego!”, dizem os italianos, e não encontro em outra língua, uma expressão mais forte que esta para suplicar com verdade e necessidade o meu desejo. “Ti prego” – numa forma chorada, (um chorar quase sem fim) que tudo em mim seja um depósito para te receber mais e mais vezes, não importando a ordem, eu só quero que tu possas cair em mim como um casal de namorados que se entrega pela primeira vez ao amor.
- Vem tempo, vem comigo deixar falar a vida carregada de sonhos, baila comigo na multiplicidade e no compasso do vento que marca o ritmo natural das coisas!
Tempo, tempo...Tempo de ninguém é tempo egoísta, porém, dividi-se no Todo;
Tempo, tempo...Tempo fugidio é tempo livre, porém, marca a todos;
Tempo, tempo...Tempo constante é tempo forte, porém, medroso de partir sozinho...
Danielle Soares
Vlieland (Holanda), 20/21 de setembro de 2008