quarta-feira, 11 de junho de 2008

SOLIDÃO INQUIETA


A sala está preenchida por uma voz, o som da guitarra e do violão hipnotizam os pensamentos, e a voz me chama a seguir aqueles instrumentos repletos de sentido.
Estou sonolenta, páro de escrever e fecho os olhos por segundos, volto a abrí-los, me viro sobre o sofá e passo a enxergar para além da sala.
O tempo está claro, mas é uma claridade que sufoca porque o sol está, ao mesmo tempo, que parece ausente...É estranho descrever esse tempo: É um calor, melhor, é um vestígio de calor. Sim, é uma indecisão, é algo que me foge. Volto a me concentrar na sala, que é de uma claridade absorvente.
Ouço a música, olho essas letras e a música acaba, ouço aplausos e a guitarra volta, a voz ressurge e eu olho os objetos, todos imóveis. Começo por jogar vida neles mas não reagem - Estão mortos no seu fim decorativo.
Me movo, me canso, me ignoro. Penso.
Os pensamentos não param e fico sonolenta. A música volta ainda mais forte e desperto.
Ouço um barulho vindo de fora.
Um helicóptero sobrevoa a cidade. É verde. A cidade está intacta e não repara naquele pássaro de ferro que lhe vigia.
Novamente os plausos, um ruído incomodativo sufoca. Metrô, que calculadamente me enche os ouvidos com esse som irrinitente.
Procuro me centrar na música, na melodia e me detenho no som da bateria, na pulsação que marca o tempo. O tempo está lento.
O metrô chega incomodando.
Esqueço a música e fico sonolenta. Meus braços doem, as letras começam a sentir a feiura e por isso, tornam-se disformes, quase como que o tempo, elas atingem o nível da incompreensão.
Apoio o meu braço direito sobre o sofá, para que assim, as letras regressem ao estado do entendimento aos olhos dos que sentem o desejo de folhear este caderno repleto de inspirações.
A sala ecurece, o pouco sol que havia fica ainda mais encoberto e a música acaba...Surgem os aplausos e assobios e o braço continua a reclamar da dor.
Acho que quer parar de escrever...Logo agora que surge na sala uma das mais belas canções: Running on Faith de Eric Clapton.
Com licença...Me absorvo na música.
A sala passa a ser música e eu continuo sonolenta, deitada sobre o sofá - A voz me domina.
Me entrego aos instrumentos e à música em harmonia.
O tempo continua escuro e indeciso e eu durmo ao som da melodia abstrata e transformada em mim. Não, o sono não foi o suficientemente forte. Inesperadamente, um cheiro vindo da rua me assalta, penso: É cheiro de chuva! Me viro novamente no sofá, de forma que eu possa olhar para a varanda e passo a enxergar nos vidros pingos finos. Sim, confere, é cheiro de chuva! E como adoro esse cheiro de terra molhada...Me entrego a ele e volto à minha infância, que com muita frequência, sentia com prazer este cheiro tão forte e significativo para mim.
A música ainda não acabou, mas agora, tudo está perfeito: A voz, a sala, a indecisão do tempo, os instrumentos e esse cheiro de uma particularidade singular. Engraçado, o sol ressurge com todo o seu poder iluminatório. Já não estou só...Tudo está comigo, agora.

Danielle
Porto, 10 de junho de 2008

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