sexta-feira, 11 de julho de 2008

Homenagem

À minha mãe: Neiza Teixeira

Ronda para adorar o que queimei

Há livros que lemos sentandos num banquinho
Diante de uma carteira escolar.
Há livros que lemos andando
(E é também por causa do formato);
Uns são para as florestas e outros, para outros campos,
Et nobuscum rusticantur, diz Cícero.
Alguns há que li na diligência;
Outros, deitado no fundo dos celeiros de feno.
Há os para fazer crer que temos uma alma;
Outros, para desesperá-la.
Há os em que se prova a existência de Deus;
Outros, em que não se consegue fazê-lo.
Há livros que não é possível admitir
Senão em bibliotecas particulares.
Há os que receberam elogios
De muitos críticos autorizados.

Alguns há em que só se trata de apicultura,
Que certas pessoas acham algo especializados;
Noutros fala-se tanto da natureza
Que não vale mais a pena passear, depois.

Outros há que os homens sensatos desprezam
Mas que excitam as criancinhas.

A alguns chamam ontologias
E neles incluíram tudo o que de melhor se disse a propósito de tudo.
Há os que desejariam fazer-nos amar a vida;
Outros depois dos quais o autor se suicidou.
Alguns semeiam o ódio
E colhem o que semearam.
Alguns, quando os lemos, parecem brilhar,
Carregados de êxtase, deliciosos de humildade.
Há os que amamos como irmãos
Mais puros e que viveram melhor dos que nós.
E os há impressos em caracteres extraordinários
E que não compreendemos, mesmo depois de tê-los estudado muito.

Alguns há que não valem um vintém furado,
Outros alcançaram preços consideráveis.
Alguns falam de reis e de rainhas
E outros de gente muito pobre.

Alguns há cujas palavras são mais suaves
Do que o ruído das folhas ao meio-dia.
Foi um livro que João comeu em Patmos
Como um rato; mas eu prefiro as framboesas.
Isso lhe encheu as entranhas de amargura
E ele teve depois muitas visões.


Não basta ler que as areias das praias são doces; quero que meus pés nus as sintam...É-me inútil todo conhecimento que uma sensação não precedeu.
Nunca vi nada docemente belo neste mundo sem desejar desde logo que toda a minha ternura o tocasse. Amorosa beleza da terra, maravilhosa é a inflorescência de tua superfície. Ó paisagem em que meu desejo se abismou! Região aberta por onde passeia a minha busca; aléia de papiros que se fecha sobre águas; caniços debruçados no rio; aberturas das clareiras; aparecimento da planície no vão das ramagens, da ilimitada promessa. Passeei nos corredores de rochas ou de plantas. Vi desenvolver-se a primavera.
VOLUBILIDADE DOS FENÔMENOS
Desde esse dia, cada instante da minha vida adquiriu para mim o sabor de novidade de um dom absolutamente inefável. Assim vivi numa quase perpétua estupefação apaixonada. Alcançava muito depressa a embriaguez e comprazia-me em andar numa espécie de aturdimento.
Por certo quis beijar tudo o que encontrei de riso nos lábios; quis beber o que encontrei de sangue nas faces, de lágrimas nos olhos; e morder a polpa de todos os frutos que dos galhos se inclinaram para mim. Em cada albergue uma fome me saudava; diante de cada fonte uma sede me esperava – uma sede particular diante de cada uma; - e almejara outras palavras para marcar meus outros desejos
de marcha, onde se abria uma estrada;
de repouso, onde me convidava a sombra;
de nado, à margem das águas profundas;
de amor ou de sono ao pé de cada leito.
Botei intrepidamente a mão em todas as coisas e acreditei ter direitos sobre cada objeto de meus desejos. (Demais, o que almejamos, (...), não é tanto a posse, é o amor.) Que toda coisa se irise diante de mim! Que toda beleza se revista e se matize de meu amor!

Livro: Os Frutos da Terra
Autor: André Gide.


Aos 25 anos de idade, senti a necessidade de reler o livro já citado. O quê significa, para mim, reler Os Frutos da terra?
Significa recordar, lembrar, resgatar, recolher ou colher parte de mim e parte da postura que resolvi assumi diante da vida e dos que se aproximam de mim. É certo que aos 13 anos de idade (Primeira vez que li este livro) não o compreendi na sua profundidade, mas lembro, que passava horas fechada no quarto lendo e transcrevendo os trechos que me arrepiavam. Sentia uma alegria muito forte sempre que eu me desligava de tudo e me entregava àquela leitura: Lia em voz baixa e em voz alta, era como se naquele momento eu brincasse e desafiasse as letras, o autor e trouxesse para o meu lado a dona dele. Aquele "ritual" tinha o poder de me devolver imagens que me eram tão comuns: Minha mãe entregue aos livros. Era maravilhoso ler e puxar pela memória - Recordar a infância e sentir as paisagens que André Gide transcrevia de forma brilhante e sedutora nas páginas amareladas do livro Os Frutos da Terra.

Olhava aqueles livros e me sentia chamada por eles e só eu posso saber as horas que eu dedicava a eles, limpava-os, organizava-os, ao mesmo tempo, que eu os descobria. Não poderia haver satisfação maior naquela fase da minha vida...
lembro que a primeira coisa que me chamou a atenção no livro foi a capa, ou melhor dizendo, a sua anti-capa, que era preenchida por flores vermelhas de talos verdes muito finos, neste momento não recordo o nome delas, mas tive a satisfação e a sorte de vê-las pessoalmente, e quando as vi, automaticamente, lembrei daquela anti-capa que já não existe. Foi numa “cidade” pequena da Itália, especificamente, em Parona, era primavera, passeava na companhia de um amigo e da sua cadela Chicca, ainda lembro aquela tarde, porque me deu a chance de ver, exatamente, a imagem que sempre admirei na minha adolescência e juventude, não compartilhei com ninguém aquela visão, afinal, era unicamente meu o prazer de fazer real Os Frutos da Terra.
Como inicialmente escrevi, releio este livro, mais madura e com o conhecimento mais alargado, começo por compreender muitos dos meus comportamentos e a ambicionar ainda mais o conhecimento do mundo.

Quem me dera se todos os jovens dedicassem alguns minutos à leitura, e se todos tivessem a chance de ter como espelho uma figura como a que tive! Eu tenho a certeza que eu não poderia ter me tornado outra pessoa senão essa que sou, desde de muito nova descobri o prazer da leitura e é como se cada vez mais eu precisasse disso para viver, é como sentir um sopro de vida, mas não é só ler, é interpretar e fazer da leitura e do conhecimento a sua arma ou escudo.

Ler siginifica crescimento, significa despertar, significa ser curioso, significa questionar, significa viajar e tocar em solos não seus, significa sonhar de olhos atentos e viver perigosamente, porque ler é permitir a invasão do outro no eu. Até que ponto permaneceremos os mesmos após esta invasão? Resposta absolutamente subjetiva e íntima do leitor.
Ler é ser, ou melhor, ser implica ler. Pena que falta muito para termos uma sociedade mais voltada para o sabor da leitura.
Continuo e continuarei lendo sempre Os Frutos da Terra, pois, como todos os que me conhecem muito bem, sabem que esteja eu onde estiver, ele estará sempre comigo. E hoje sei que foi com André Gide que aprendi a sair de casa num dia de sol sem destino – Não há coisa melhor do que caminhar longos minutos e chegar a beira de um rio ou a beira mar na companhia de um bom livro. Não faz muitos dias, caminhei muitos minutos absorvendo o sol e fui parar num daqueles bancos que preenchem a Ribeira do Porto e lá me entreguei à leitura desse livro e à observação incessante do curso do Rio Douro. Me senti totalmente escrava daquelas letras e daquela linda paisagem. Fui levada a colher ótimos frutos naquela tarde ensolarada, foi uma experiência que me fez sentir a leitura muito mais saborosa...

Os Frutos da Terra é um livro que revigora e que chama à superfície a sensibilidade humana e que nos faz ainda mais atentos para a vida.
Me resta justificar o porque deste trecho dedicado à minha mãe. Penso que não é difícil entender os motivos que me levaram a tal atitude. Ela era, até então, a única dona do livro, mas, a partir dos meus 13 anos de idade adotei o meu primeiro filho (Os Frtutos da Terra) e não tem mais como eu abandoná-lo ou esquecê-lo. Foi a mais brilhante descoberta que fiz quando sozinha pensava e sentia saudades da minha mãe...
Obrigada mammy pela aprendizagem mais rica e mais valiosa que tenho.
Ia esquecendo, mas foi também esse livro, que me fez escolher o caminho na filosofia, pois, se foi a filosofia que me retirou por alguns anos a presença da minha mãe, foi ela, também, o elo de ligação entre mim e a filósofa que mais admiro: Neiza Teixeira.
Porto, 11 de julho de 2008

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