sábado, 10 de outubro de 2009

Uma memória



A espera pelo desconhecido é imensa, para não dizer, infinita - Sentada a beira desse mar brando sinto o desejo de me doar ao barco que aparenta leve e impotente diante dessa imensidão cinza e fria. Observo os pássaros que se aproveitam dessa lentidão sossegada. Do meu canto, grito calada essa paisagem que me assalta os sentimentos da partida...
Foi lá, naquela ilha escondida de tudo, que me reconheci fugitiva, até daquilo que não me pertencia.

Danielle Soares
Porto, 10 de outubro de 2009

* Homenagem a Ilha de Vlieland - Holanda

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O que ainda resta

Henri Matisse

Dentro de mim sinto um vazio imenso, que toma conta de todos os meus atos.
Não sei o que chamar a isso!
Será saudade, tristeza, insatisfação, descrença, desespero, ou será a simples constatação de que ele está partindo aos poucos para distante de mim?
Uma raiva estranha me acompanha, é estranha porque é de mim que sinto esta raiva.
Não sinto raiva do tempo, porque foi nele que configuramos os nossos planos, não sinto raiva dos lugares que admirei ao teu lado porque me entreguei a cada paisagem e respirei com o ar da liberdade as particularidades de cada um deles, não posso sentir raiva das pessoas que testemunharam a nossa história, que vibravam em cada descoberta que compartilhávamos com elas, não posso sentir raiva dos teus e dos meus costumes e, tampouco, posso sentir raiva dos cuidados que prestamos um ao outro.
E como seria covarde se sentisse raiva da vida ao ponto de me negar a ela!
Mas que culpa ele tem se eu fui a única disponível a apostar num sentimento que me dominava da raiz dos cabelos a ponta dos pés? E, será justo julgar as nossas atitudes, quando embalados pelo envolvimento?
A história deve continuar, fora do passado e dos pensamentos que me assaltam.

Danielle Soares

Porto, 30 de setembro de 2009

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Por aí e nem aí

Salvador Dali

Um dia quando me vi grande me concebi inteira nas minhas fraquezas
Desejei um dia mais longo e a noite mais curta, para poder mostrar aos presentes, a fortaleza daquela que foi um dia a garota frágil que todos queriam proteger.
Manhã azul, onde os pássaros leves e libertos bailavam no imenso céu claro, eu os observava e me recordo que o desejo de ser um deles me assaltava de forma que quando dei por mim girava no lugar onde estava e sorria e cantava e expressava a todos a minha total liberdade...
Acompanhando os pássaros me fiz forte e sem barreiras.
Dançava em terra, quando de repente, um estrondo roubou a minha cena, e só conseguia me ver jogada naquela rua suja, as pessoas se aproximavam com a intenção de ajudar e eu gritava ainda:
Logo agora que me vi livre!!!
Ali, exatamente no momento da mais exuberante e verdadeira força, qualquer coisa me aniquilou inteira.

Danielle Soares
Porto, 25 de setembro de 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Que falta de concentração e inspiração é essa que toma conta de mim?

Eita mania de querer se sentir só!

De deitar numa cama imensa e olhar o teto branco cheio de memórias

Recordar um olhar desinibido

Uma certeza de enxergar a partir do umbigo

A necessidade de exprimir o meu gemido

Camuflado na minha desesperada idéia
De que para escrever basta estar viva!

Danielle Soares
valença, 22 de julho de 2009

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sonho

Essa noite eu tive um sonho, um sonho pacificador e que me causou lágrimas de saudades
Sonhei com o meu avô paterno, uma pessoa que não tive muito contato ou proximidade.
Morto está ele.
Nesse sonho estávamos eu e meu irmão Daniel
Acho que estávamos no céu
Não, estávamos num lugar claro, e tenho a sensação que estávamos apenas no início para se atingir o fim da matéria.
Nas gramas altas e finas se aproximava um senhor, que caminhava lentamente e meus olhos se enchiam de lágrimas de dor
Ele se aproximava e reconhecíamos
Era o nosso avô
Ele vinha exatamente igual a última vez que o vi, sempre bem composto.
Ele vinha sorrindo e nos olhava de passagem
E meu irmão não desviava o olhar do que acontecia ali
Era o nosso avô que parecia retornar para nos guardar
Eu chorava e ele nos olhava sorrindo
Era um sorriso eterno e de saudades
Talvez da sensação de estar vivo
Talvez do poder de estar com os vivos.
Ele passou ao nosso lado, nos olhou e seguiu sem dizer uma palavra
Ele desapareceu naquela infinita paisagem clara e de paz.
Acordei com saudades
Saudades do avô que mais não tenho que uma breve memória
Saudades do meu irmão que vem acompanhada de uma preocupação
Esse sonho me deixou extremamente perto daquilo que já se foi
Acordada pedi proteção, porque não posso mentir que esse sonho me causou medo
De um amanhã que desconheço.
Descansa em paz - O que disse quando tomei consciência de que o meu avô já não existe mais.

Coimbra, 24 de Junho de 2009
Uma homenagem ao meu avô paterno, Paulo Marques Soares.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Desespero na despedida

A espera que toma conta do meu ser me faz pequena.
Olho o tempo e me questiono nele
Questões sem respostas
Espera sem chegada
Despedida sem um abraço
Ela acontece nessa solidão que invade a minha existência

Despedida do que ainda não vi
Despedida daquele que não beijei
Despedida do tempo que ainda não veio
É a despedida futura desse presente que não vivo

Cama desfeita
Quarto silencioso
Mesa vazia
Meu corpo te olha de saída
Fecho a porta
E me jogo na estrada antiga
Escura é ela, meus passos seguem lentamente
Em busca de algo que me permita a despedida verdadeira

Me despeço,
Desse quadro que reflete a leveza do estar
Dessa atmosfera que não existe para além dele
Dos traços felizes que sobressaem dessas imagens fictícias

Me despeço do irreal
Da arte que engana o meu espírito
E novamente me jogo na estrada antiga e escura
E nela me despeço dessa sensação de desprazer.

Danielle Soares
Coimbra, 17 de junho de 2009

* Inspirada pelos estudos filosóficos e pela atmosfera acadêmica de Coimbra.

sábado, 6 de junho de 2009

Essa palavra que surge agora diante de mim,
É a palavra que naturalmente vem de dentro de mim.
Essas frases que leio as absorvo como quem absorve o prazer de um dia inteiro na praia
Dia quente, mar azul e gente do mundo inteiro
Habitam hoje, neste instante no qual escrevo, em mim
Praia imensa, areia branca, fina e fugidia
Biquinis pequenos, grandes,coloridos e sem cor
Secos e molhados
Toalhas estendidas nessa areia que sinto o desejo de tocar
Mas nada posso,
Ela fez-se e se desfez
E desse lugar onde me encontro sinto o sol forte no meu corpo
Me fazendo viva nessa realidade que foge para longe de mim.
É como esse garoto que corre na praia, grita, pula, cai e se levanta
Assim ele conquista o mundo e a mim
Me faz sentir um incontrolável desejo de poder agir
Com essa naturalidade leve que ele deixa sobressair
Garoto de praia, pés descalços e pele morena
Me faz criança outra vez
E me deixa viver na tua vez

Danielle Soares
Valença, 06 de junho de 2009

domingo, 19 de abril de 2009

Gúri Cheio de Lua

Era uma vez um garoto que costumava observar a lua e passava longas horas olhando para o céu e a cada instante que ele permanecia na janela da sua humilde casa, era como se os seus olhos saltassem de tanta alegria. Era fascinante observá-lo, porque ele fazia com que ela lhe pertencesse e a distância entre ambos inexistia.
O seu entusiasmo era tal que depois de uns largos minutos chamava sempre os outros garotos da rua, para que eles pudessem sentir tudo, igualzinho ao que ele sentia, ou seja, “a lua na ponta dos olhos”. A lua era fuga e recolhimento nele, mas para os outros ela era apenas uma bola grande no céu, por isso, ouvia-se sempre de um deles:
- Tá doido Gúri?!? Tu vê coisas onde não há nada, a única coisa que vemos é o céu escuro e uma lua grande e redonda.
Gúri era o nome pelo qual atendia, desde de muito novinho que o chamavam assim, que não só ele, mas todos, já não lembravam o seu nome de batismo. Não poderia haver apelido mais certo que este, porque ele era um autêntico guri, um garoto curioso e com a capacidade de transformar e transportar o mundo real para o seu mundo infantil. Ele era um garoto criativo e a sensibilidade evaporava através dos seus poros e dos seus olhos cheios de fogo e pureza.
Ele não se importava se os outros não conseguiam absorver a beleza que se escondia na lua, porque o que contava era a sua vontade de tocar ou ver de bem próximo a lua e se deixar envolver na paisagem que invadia os seus olhos infantis.
Todos os outros diziam: Gúri, vamos brincar de outra coisa, não tem graca ficar aqui olhando esse céu escuro, já estamos com o pescoco duro de tanto que olhamos para o nada!
- Nada??? Exclamou Gúri. Vocês chamam de “nada” a essa paisagem que agora vejo e sinto?
Eu posso ver árvores cumpridas, finas e com folhas bem verdinhas, casas como se fossem de brinquedo, iguais as que as meninas brincam, animais peludos tão brancos como se fossem as nuvens do céu, pessoas de todas as idades, cores e tamanhos, e esta paisagem é coberta por algo que vem de cima, essa coisa é branca, são pingos brancos que caem como se fosse chuva, mas é estranho porque a chuva aqui não é branca como a que vejo na lua.
- Como quero fazer parte disso! Mas como será podemos chamar as pessoas que vivem na lua?
Respondeu um dos seus amigos: - Lunaldo, Lunossauro, Luarado. Ah Gúri, tu fazes perguntas e fala coisas que não entendemos. O melhor é procurar alguém que possa ver tudo o que tu dizes ver e assim vocês poderão falar toda a noite porque nós não vemos nada do que tu dizes e por isso não sabemos nadinha de nada sobre a lua, mas, penso que tu és um Lunaldo, ou melhor, um Gúri cheio de lua quando ela está assim, gorda e amarelada.
- Quando a lua está assim como dizes, gorda e amarelada, é lua cheia, então eu gosto do meu novo nome: GÚRI CHEIO DE LUA.
- Como é bom ser Gúri, mas o Gúri cheio de lua...cheio de lua...Como é bom ouvir: Gúri cheio de Lua...
Ele era tão cheio dela que sempre que ela era redonda, grande e amarelada, ele passava horas observando-a e crescia mais e mais a vontade de fazer parte daquele mundo.
Numa daquelas noites, ele pediu tanto para sentir a lua nas mãos que, de repente, uma bola transparente caiu em meio a ele e os seus amigos. A reacão dele não podia ser outra, senão a de sorrir esplendidamente e gritar para todos: - É a lua!!!!!!!! Vejam, eu tenho a lua nas mãos!
Ele parou alguns segundos e imóvel olhava para aquela bola sem piscar os olhos, e com entusiasmo ele sussurrava: - Como é pequena a lua; é linda e cabe nas minhas mãos. Agora vejo de pertinho as árvores, as pessoas, as casas e os animais, iguaizinhos ao que eu disse a vocês.
Todos os outros garotos olhavam para o Gúri sem saber o que realmente acontecia, alguns sentiam medo, outros chegavam a pensar que ele estava ficando doido ou que brincava com a cara deles. Tudo era tão surreal que nenhum teve a coragem de interromper aquele momento e gentilmente acompanhavam o Gúri naquele extraordinário encontro com a lua.
Ele não conseguia parar de admirar aquela sua lua e num certo momento ela se abriu em suas mãos e ele não desejava senão entrar naquela bola, por mais que soubesse que não caberia ali de tão pequena que era a lua, mesmo assim, ele tentou primeiramente com a sua mão direita e assim que tocou no interior daquela bola sentiu que tudo era pano, que toda aquela paisagem era de pano e exclamou:
- Na lua tudo é de pano.
Tocou várias vezes nela e sabiamente exclamou:
- A lua deixa de ser lua quando não está no seu devido lugar. Vejam, ela é tão pequena que mais parece uma bola de árvore de natal.
Um dos garotos com autoridade disse: - Você não vê Gúri que é uma bola de árvore de natal e não é a lua, quando vai parar com esses delírios de moleque?!?
Sem falar nada e sem deixar de olhar para ela, Gúri resolveu arremessá-la, com toda a forca que cabia naquele seu corpo magro e pequeno. Ele se despediu da sua lua e ela se foi, por instantes desapareceu na escuridão do céu estrelado e quando tornada ao seu lugar, ele a viu ainda mais amarela, mais viva e mais cheia e desde dali ele não cansou de dizer que era um Gúri cheio de lua.
Gúri era um garoto tão intenso nas emocões que admirar a lua era a sua maior diversão e sentia orgulho em dizer para todos que era amigo da lua e que não havia segredos entre ambos. Ele era pobre, mas dizia ser a pessoa mais feliz do mundo porque ele pôde sentir a lua como nenhum outro.
Assim era Gúri, sonhador, criativo, inocente, curioso, sensível, carismático, um garoto inteligente e pronto a descobrir mundos distantes de todos, ele enxergava tudo com o olhar diferente de todas as outras pessoas, conseguia ver belezas que se escondiam na brutalidade da pobreza. Gúri era um apaixonado e o seu amor maior foi sempre a lua, apaixonava-se sempre e sempre mais quando os seus olhos se perdiam nela.
Um dia Gúri cresceu e todos os seus comportamentos foram mudando, o seu corpo, tudo nele mudou e se tornou um belo homem, um inteligente e sensível homem. Todos os seus amigos da infância sumiram, cada um buscou o seu caminho e com ele não podia ser diferente, também correu atrás dos seus sonhos e de forma brilhante ultrapassou todas as barreiras e preconceitos para conseguir aquilo que mais desejava:
Se tornar astronauta...
Gúri se tornou um astronauta reconhecido em todo o mundo pelos seus feitos e pela paixão que deixava sobressair em seus olhos sempre que falava dela – do seu grande amor, a lua.
Agora ele podia encontrar a lua quando desejava e pode-se dizer que ele estava mais tempo com ela do que qualquer outra pessoa.
Aquele moleque pobre se tornou um homem rico e concretizou projetos destinados às criancas humildes que sonham como ele, e parece até que a coisa mais normal do mundo é ir a lua, pois o seu projeto deu tão certo que é comum ouvir entre as criancas que já foram ou irão à lua.
Sim, Guri acreditou sempre e fez com que todos os seus mais íntimos sonhos se tornassem reais e ele é um ser humano tão nobre que compartilha o seu maior feito com todos os que se comprometem com os seus ideais.
A sua história não podia ser diferente e a vida naturalmente foi se comprometendo com os seus sonhos e assim continuamos acreditando na potência dos nossos sonhos. Gúri é hoje um exemplo de que se pode e deve continuar sonhando sempre, não importando quão audaciosos sejam esses sonhos pois, a vida perde totalmente o sentido quando desacreditamos neles.

Danielle Soares
Glimmen, 19 de abril de 2009 * Dedico ao meu irmão Deivy (Pessoa que amo desmedidamente) que no último dia 16 completou mais um ano

sexta-feira, 27 de março de 2009

Solidão

A lua me olha desinibida
Clareia a escuridão que habita em mim
E eu pergunto:
Por quê vivo nesse mundo?
Ouco o silêncio no infinito do meu ser
E olho a lua,
Espacosa e dona dessa escuridão que preenche o universo
E enxergo a minha condicão - a de ser humana.
No silêncio da noite vou me reconhecendo
De ser exatamente essa lua que surge
Na certeza de que se vai embora...

Danielle Soares
Glimmen, 27/03/09

* Um dia acreditei que todos os teclados eram universais,mas não,no teclado da holanda não existe o cedilha e daí algumas palavras se mostrarem não tão bem vistas aos olhos dos que conhecem o português. Assim justifico a ausência do cedilha e agora vejo ainda melhor a falta que um cedilha faz.

terça-feira, 24 de março de 2009

...

Vem fica comigo, nessa espera melodramática que é a vida,

Fica ao meu lado e relembra a nossa existência desequilibrada

Vem e fica comigo
Não me deixa sozinho
Foge do seu egoísmo
E abandona o seu único desejo: O de estar só
Eu passo por cima dos meus mais nobres princípios
Para poder sempre estar contigo
Fica comigo e não deixa que a distância me torne indigno
De viver aquela que é a minha maior ambicão:
De ser sempre e mais o seu melhor amigo!

Vem, fica comigo
Me prende contigo
Vem e fica comigo
Me deixa ser o seu melhor amigo
Vem e me dê as suas mãos
Até o instante em que você compreenda
Que esse amor não é em vão.

Fica ao meu lado,
Calado,
Me sinto desesperado
Mas não largue as minhas mãos
Nesse momento em que tudo é escuridão.

Danielle Soares,
Glimmen 26/03/09