O meu desejo é que tudo jaz
Meu medo é que tu vás
Meu drama é que desperto
No silêncio daquele que se desfaz.
Corpos engolidos pelo trem que os transportaria ao futuro
Foi o mesmo trem que os deixou em pedaços, como comidos por bichos ferozes
Observo os seus corpos…
Pedaços de carnes, ensanguentadas, presas entre as pedras e os trilhos.
Curiosos se aproximam, pessoas passam mal, outras não piscam os olhos como se fosse pecado perder qualquer segundo que fosse, algumas passam por ali mas nem sequer viram o pescoço para olhar o que realmente acontece. Na verdade sabem, mas não querem compactuar com a crueldade dos fatos.
Esse agora é indecifrável e me aterroriza…
Dois jovens, casal de namorados que pela primeira vez iriam passar um fim-de-semana fora. Imagino que este seria o grande evento da vida de ambos, e nos meus pensamentos chego a vê-los traçando os planos da viagem, olhando o mapa do lugar que continua desconhecido e os vejo felizes, mesmo que, eu nunca os tivesse visto realmente, a não ser agora, nesse amontoado de carnes que choram a sua triste sorte… Olho para tudo isso e não vejo ninguém…
Decido ir embora, deixo aquele lugar com os olhos molhados e os levo comigo na memória.
Não suportaria presenciar a chegada dos familiares, quando ouvi entre a gente que os pais estavam próximos, partir… E, mesmo assim, enquanto caminhava lentamente ainda próximo do local, ouvi gritos, choros e perguntas que se resumiam no “Por que de ter acontecido isto?”
Ainda hoje repito essa mesma pergunta e continuo no vazio que ela mesma me coloca…
*Texto inspirado no suicídio de Robert Enke (1977- *2009)
Escrevi este texto como forma de homenagear o goleiro alemão Robert Enke (de 32 anos de idade) que no dia 10/11/09 se suicidou após um longo período (6 anos) de depressão. Acredito que a capacidade de escrever me permite traçar as questões que me assaltam de um modo criativo. Criando, posso expressar as minhas revoltas e também as minhas alegrias, nesse caso, deixo aqui a minha tristeza e o meu luto.
Danielle Soares, Porto, 14 de Novembro de 2009
Abro espaço para uma reflexão acerca da trágica morte do goleiro alemão Robert Enke de 32 anos de idade, que na última terça-feira (10/11/09) decidiu ou foi levado a pôr fim à sua própria vida. Não sou uma pessoa que lida bem com a morte quando ela envolve o outro, porque não consigo ser conformista nesta questão, e acredito que é natural de todos os seres humanos essa luta constante contra a consciência de que no fim acabaremos todos por morrer…Confesso que esse tema para mim é dos mais terríveis porque sempre fui assaltada pela ideia de terror que provém do ser morto, me lembro que desde muito cedo sinto um certo calafrio quando sei da notícia de que alguém morreu ou foi assassinado ou resolveu acabar consigo próprio. A morte é no sentido geral o fim dos seres mortais, ela nos deixa a total certeza de que caminhamos para ela, de forma paciente ele aguarda por cada um de nós e é exatamente neste ponto que me coloco inconformada e desajeitada diante dela…
Ao saber do suicídio de Robert Enke pela televisão, me senti totalmente triste e iniciei a pensar na sua vida, que pouco conhecia, como se assim, eu fosse capaz de sentir a sua tristeza, os seus medos e a sua fragilidade, pois afinal de contas, visto de fora, ele tinha bons motivos para se querer vivo. Consoante isso, empreendi uma pesquisa a respeito de sua vida para que eu pudesse deixar a minha homenagem já que desde então, não paro de imaginá-lo, o que resulta em mim uma sensação de tristeza. Talvez por gostar muito de futebol e também por não saber lidar com a tragicidade da morte que exponho no meu espaço algumas linhas dedicadas a este jogador que será sempre lembrado pelos que compartilharam e vivenciaram os seus melhores momentos, bem como, os seus momentos mais frágeis. Não foi a minha intenção expor dados concretos de sua vida profissional, familiar e social, mas sim, uma tentativa de participar nos seus medos e na sua triste decisão de anular-se. Por saber que o nosso limite é justamente as emoções do outro que deixei a minha fantasia livre para trihar os seus caminhos...

3 comentários:
Querida Dani, sei exatamente do que falas, pois, na mesma intensidade sinto medo da morte. Nada me pode fazer aceitá-la como um fato natural. Sempre achei que é uma violência a todos os seres. Sei que somente tenho este sentimento porque estou viva, porque somente os vivos podem lamentar a perda de uma pessoa amada ou a vítima de um acontecimento trágico.
Mas, também me pergunto quais os sofrimentos que podem levar a uma decisao como o suicídio. Talvez as pessoas que o praticam sejam muito corajosas, talvez compreenderam que a vida é um completo absurdo.
Fico por aqui.
Nega, a morte é o fim da vida, e o fim da morte é o começo da vida. A liberdade no pensar nos permite fazer da vida e da morte da vida um sonho, uma viagem a um paraiso distante, ou um merecido descanso. Da morte dos que amo so posso lamentar e desejar uma boa viagem, um bom descanso da vida e que se divirta. Bebamos nossos mortos, choremos e gargalemos nosso queridos mortos que alimentam as ervas e os rios, o céu e as industrias, o aço e a virgem, a capoeira e o samba, que empresta a parte mais bela do seu corpo pra uma descendente e assim ciclicamente no ritmo da natureza! Herdar é motivo de festa! Duas cervejas estupidamente gelada, o euro milhoes, seu Jorge, Chico CESAR, mESTRE pASTINHA, Doutora NEIZA e etc e tal. Viver é dizer cruz credo morte, Deus me proteja de vc e beber até cair, e ler livros de auto ajuda, e comer um mac donald, e fumar maconha pra ficar doidao e achar que compreendeu o sentido da vida, que é um bom psicologo ou uma boa escritora, é mandar tomar no cu, meter a porrada, beijar na boca, tomar a bençao do papai Saba e da mamae Joaquina. Viva a vida e deixemos a morte nos beijar devagar, nos acariciar, nos falar baixinho no ouvido, nos excitar e parti com ela como se fossemos subir ou descer as escadas pra entrar no quarto de uma mulher, de um homem ou de um traveco brasileiro que trabalha no bois de boulgne. bEIJOS, Minha Neguinha!
Canto Para A Minha Morte
Raul Seixas
Composição: Raul Seixas / Paulo Coelho
Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar
Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida
Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.
Existem tantas... Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A anestesia mal aplicada,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...
Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite...
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida
Acredito que Raul Seixas expressou exatamente o que nós, seres inconformados, gostaríamos de colocar diante dela...
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