domingo, 25 de maio de 2008

Os nossos tempos


Dói a dor dos estranhos já passados.
Chegando aqui, nesse espaço completo por um cinza proveniente da memória que traz os tristes olhares de um povo suprimido pelos tempos não mais normais.
Chegam João, Francisco, Armando e Amadeo. Homens que deixam por onde passam a pesada lembrança sofrida da pobreza miserável que vem desde os seus ancestrais.
Eles não choram, não riem satisfatoriamente, eles parecem simplesmente, viver e, viver, para eles, é sobreviver, vencendo os empecilhos e a crueldade que invadem os seus caminhos.
Vivem dos seus trabalhos, servem a todos como se fossem parte de suas famílias - não fazem distinção de pessoas, pois aprenderam, de uma forma honesta e digna, o significado do termo, pessoas de bom coração.
Quatro figuras retiradas de um lugar puro, sem maldade e sem olhares perdidos nos atalhos da mediocridade.
São sábios nos seus espaços, tudo o que fazem, fazem com entrega e quanto mais fazem mais é visível o prazer que transborda em suas faces - Homens simples, humildes e de uma riqueza invejável: A sabedoria como lidam com a vida supera todas as expectativas; Eles encaram os acontecimentos como consequências, não desprezam a alegria nem a dor, sentem tudo na sua mais total essência, são humanos e só por isso, resistem, insistem e não desistem.
Para quê desistir?
Eles respondem com o sorriso nos lábios:
- Só desiste aquele que perdeu o sentido da vida, deixando, por isso, de senti-la como abertura para infinitas possibilidades, e este não deixa de ser, para nós, covardes!
Apesar da humildade que os assombra e os guarda, eles jamais deixaram de oferecer aos que deles se aproximaram, uma mão e, foi neste doar de mãos e coração que eles me deixaram invadir e conhecer aquele modo de vida tão singular e longiquo.
Como foi enriquecedor o tempo que ali vivi! Foi gratificante poder dividir com eles experiências tão distantes.
Ouvindo-os pude constatar que uma grande parte dos valores assimilados por nós perdem, justamente, o sentido de valor, quando confrantados com a sabedoria daqueles senhores que ambicionam a cura da maldade humana.
A conquista dá-se quando nós permitimos e nos permitem a entrega; Quando nos dispomos a assimilar as diferenças dos outros com o único objetivo de acrescentar algo de positivo em nós - Não adianta ditar os valores, as crenças, as regras, as falhas, as vitórias, as guerras, os dissabores, as glórias se não há de nossa parte o espírito da abertura e da entrega. De que adiantam as palavras se não houver os que que se permitem à leitura?
Foi mais ou menos isso que pude absorver daquela estada ao lado de João, Francisco, Armando e Amadeo - Espíritos sábios e solitários que nunca, talvez, terão a possibilidade de fazer de suas histórias um livro aberto para os que acreditam na leveza de um espírito saudável.
Humildade
Coragem
Confiança
Lealdade
Esperança
Honestidade
Amizade
Palavras, serão simples palavras?
Para eles não são simples palavras, mas, de uma forma extraordinária fazem com que a prática delas os tornem humanos imortais, pelo menos, para aqueles que acreditam na cura da nossa sociedade doente de valores e submersa entre a verdade infundada e a crença subjetiva de pessoas da paz. É extremamente difícil incutir o bem, mas é, indiscutivelmente fácil implementar uma tendência corporal, física, estética. Pensando bem, é muito fácil ditar uma moda ou um comportamento em pessoas que não se permitem ao próprio conhecimento ou que, simplesmente, jamais se deixarão levar por não ícones. A verdade é que dificilmente, os humildes chamam a atenção da nossa sociedade doente e fraca de paradigmas dignos de exaltação.
Zeca Baleiro soube expressar bem os passos dos tempos que vivemos:


Você só pensa em grana

Você só pensa em grana
Meu amor!
Você só quer saber
Quanto custou a minha roupa
Custou a minha roupa...

Você só quer saber
Quando que eu vou
Trocar meu carro novo
Por um novo carro novo
Um novo carro novoMeu amor!...

Você rasga os poemas
Que eu te dou
Mas nunca vi você
Rasgar dinheiro
Você vai me jurar
Eterno amor
Se eu comprar um dia
O mundo inteiro...

Quando eu nasci
Um anjo só baixou
Falou que eu seria
Um executivo
E desde então eu vivo
Com meu banjo
Executando os rocks
Do meu livro
Pisando em falso
Com meus panos quentes
Enquanto você rir
No seu conforto
Enquanto você
Me fala entre dentes
Poeta bom, meu bem!
Poeta morto!...


Esta canção está presente no CD Líricas de Zeca baleiro. Uma das mais belas letras e músicas que ouvi e ouço.
Danielle Soares
Porto, iniciado no dia 24 e finalizado no dia 25 de maio de 2008

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Ressurgida



De onde? De quem? Para quem?
Finalmente posso conviver de uma forma mais prazerosa e proveitosa com o meu espaço virtual e, isso me faz sentir o anseio de atualizar...
Atualizar tudo...
Que coisa é essa de "espaço virtual"?
Por quê a "ressurgida"?
Escrevendo esse termo - a "ressurgida" me vem na mente alguém que alterou o rumo da sua vida ou que, simplesmente, deu o ar de sua graça após um longo período de ausência.
Na verdade, reapareço hoje, depois de umas semanas distante do tão viciante e empolgante mundo virtual, mas ao contrário do que os milhares de internautas poderão pensar, eu não me senti a parte do mundo, pois, mergulhei de uma forma mais ampla e despreocupada à leitura e à uma vida um pouco mais real, se é que me entendem.
Aproveitei para viver mais comigo e com o que só os bons escritores podem nos oferecer: crescimento intelectual, pessoal, viajar por mundos jamais vistos, sentir a vida de personagens com os quais nos identificamos...enfim, o período nulo do contato virtual me rendeu frutos positivos...Descobri o quanto é bom deixar de saber de pessoas e lugares...nada melhor do que dá um tempo...
Ressurjo maravilhosamente bem pra ti:
My space ... Cresci um pouquinho mais pra ti...
A distância nos faz amadurecer idéias que sentem o desejo da evasão.
Por isso, voarei...

Danielle

sábado, 26 de abril de 2008

Tempo...foi só ou continua sendo unicamente o tempo

Desejos Vãos

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza...
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras...essas...pisa-as toda a gente...

(Florbela Espanca)

A chuva cai incessantemente, o céu está totalmente carregado...
Me sinto submersa entre o que é e o que não é, entre a fantasia e o convencional.
O tempo me move, essa negritude celestial me assombra e me coloca ainda mais íntima de mim e o tempo me molda transfigurando o meu humor.
A chuva é contínua e continua ainda mais forte, como se ela tivesse nesse momento, a árdua missão de lavar a alma da humanidade.
Ela não cessa, os seus pingos grossos deixam em nós o desejo de fuga, eles parecem chorados, tristes por caírem do céu e atingirem o seu fim – rastejar pelas ruas, becos e avenidas até que venha o sol e os mate definitivamente.
O tempo não pára, um dia, não muito distante, cantou Cazuza.
Inevitavelmente, o tempo vai seguindo o seu ritmo, o seu curso, assim como a chuva que cai continuamente. Somos escravos do tempo e buscamos nele uma alternativa segura para nos sentirmos donos, ao menos, do nosso tempo - Mas, ele (tempo) não pára, mesmo que hoje a chuva nos obrigue a estar um tempinho fechados em nós, ele (tempo) se vai e não se preocupa se ganhamos ou perdemos o tempo de pedir para que o tempo dê um tempo.
Não estou "comprando" briga com o tempo, nem com o tempo que faz hoje – um tempo cinza, carregado e recheado de invisibilidades…Porém, assim como Florbela Espanca desejou um dia:

Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!


A certeza única que teria era a de não ter certezas, no entanto, é preciso ser humana, pois, é o único meio que me permite pensar e racionalizar a condição de ser pedra, e por isso, o desejo de ser essa pedra rude e forte se anula quando a chuva cessa e os raios do sol reacendem. Florbela Espanca, sendo também humana se deu conta da condição de ser pedra e como é mísera tal condição, pois como ela afirma:
E as pedras...essas...pisa-as toda a gente...

Assim como a chuva, que por mais que nos assuste, não deixarão de ser pingos vindos de cima mas que correm o chão sujo deixado por nós – humanos mortais!
E o tempo?
Ah, o tempo – com este, ninguém é capaz…Porém, deixemos tudo em suas mãos, pois como se diz por aí, o tempo cura tudo, ou, com o tempo tudo se cura.
Danielle Soares
Porto, 26 de abril de 2008
Ofereço este texto ou esta reflexão ao meu irmão mais velho que no dia 16 deste mês completou 30 anos – Deivy é e continuará sendo para sempre o meu ideal.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Estado de Espírito




Dentro de mim sinto um vazio imenso que toma conta de todos os meus atos.
Não sei o que chamar a isso.
Será saudade, tristeza, descrença, desespero, transição, ou será, a simples constatação de que tudo está partindo para bem distante?
Sinto uma raiva estranha, estranha porque é de mim que sinto esta raiva. Não quero e nem posso sentir raiva do tempo, dos lugares por mim admirados, das pessoas que satisfatoriamente falei e souberam de mim e, tampouco, posso sentir raiva dos cuidados que ofereci ao Outro, logo, essa raiva pertence unicamente a mim e se destina infalivelmente a mim.
Se é possível definir essa raiva, afirmo: É uma sensação que vem acompanhada de dó, de pena e de lamento - Eu lamento a minha fragilidade, a minha condição e a minha evasão.
De minha janela suplico ao Universo um conforto, grito às forças que transcendem o homem e não obtenho garantia de nada.
Quero viver o rompimento - o rompimento na sua autenticidade, um rompimento que não deixa vestígios de existência e nem o sabor repetitivo do passado.
É muito para mim...Não consigo romper Nada, absolutamente, NADA!!!
Ah, eu quero paz e um refúgio para que eu viva a minha individualidade escassa e fugaz...
Não, não sou capaz!
Surge e renasce o Amor...
E eu amo!
Amo porque é bom amar;
Amo porque só ama as pessoas de bom coração;
Amo porque sou humana;
Amo porque aprendi a dizer "Amor" e
Amo pelo simples fato de sentir o Amor.

Mas o que fazer quando se ama sozinha?
Não se vive o amor, mas, se sente o amor,
Guardam-se as palavras que se pretende dizer ao amado,
Fecha-se num mundo interior coberto de dor,
Guardam-se os gestos,
Fecha-se a boca,
Guarda-se um beijo, um desejo e uma flor.

O não amor dói mais do que qualquer outra dor porque ele é a confirmação de um rompimento forçado vindo daquele que pretende camuflar o Amor.
O não amor fere o invisível dos sonhos e fere sem dó o ser sedento por descobrir o mundo em função do Amor.

Danielle Soares
Porto, 10 de abril de 2008.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Me sinto livre para expressar...


Não sei se neste momento o que me domina é o efeito do café com leite que hoje tomei na companhia da minha irmã, para quem não me conhece totalmente, devo dizer que o café (cafeína) tem um poder avassalador sobre mim.

As raras vezes que tomo a famosa meia de leite (como se diz aqui em Portugal) me sinto com os pensamentos distantes, o meu cérebro parece ativo e insatisfeito com o que me está diante dos olhos e, por isso, voa e voa sem pedir permissão. Quando assim me sinto, só me vêm à mente os meus tempos de faculdade (saudades...infinitas...) que nos tempos de provas (exames) ou trabalhos puxados eu me via "obrigada" a ir até um café e pedir uma meia de leite acompanhada de um croissant, pois sabia, que desta forma, iria conseguir ficar até altas horas da madrugada concentrada nos estudos.

Foi a partir daí que digo: Não preciso me drogar com maconha, cocaína, haxixe, e etc e tal pois basta uma pequena dose de cafeína para me deixar assim, com os pensamentos totalmente livres e a mente estranhamente ativa para receber e fornecer informações.

Estranho não? Sim, quando vejo e sei da cultura européia onde a maioria das pessoas são movidas por aqueles pequenos e fortes cafés, penso: Por quê para eles é simples e normal ir até um café, bar, discoteca, restaurante e pedir - "Um café!"?

É cultura, é hábito e por isso é comum e isso me causa uma curiosidade tremenda em saber se elas se sentem mais vivas ou se é a força do hábito...Se tanta curiosidade sinto é evidente que pergunto e, surpreendentemente, elas me respondem: "A mim não há qualquer efeito, mas não vivo sem café!"

Então, será que quem fala mais alto é o hábito/cultura ou a constatação de uma disposição acrescentada?

No meu caso, como puderam saber, acontece um efeito inteiramente produtivo porque escrevo, me sinto inspirada e com energia para viver sem me cansar, no entanto, abomino a idéia de ser movida pela cafeína e daí, eu raramente ir até um café e pedir uma meia de leite, posso até garantir que nunca pedi um expresso nesses meus 7 anos de Portugal.

A prova disso é que hoje vim ao meu blog e pela primeira vez escrevi um texto completamente livre de "prés", ou seja, livre de pré-planificações ou pré-observações a respeito do tema "Meia de leite". Por isso iniciei...me sinto livre para expressar, criar, falar e viajar...



Porto, 08 de abril de 2008

sábado, 29 de março de 2008

La vida és sueño...


Pedro Calderon de la Barca foi poeta e dramaturgo. Podemos situá-lo na linha daqueles que temos como "grandes", uma vez que, assim como todos os grandes poetas, escritores, filósofos, atores, músicos, foi vítima de uma história de vida não totalmente feliz, pois, aos dez anos de idade perdeu a mãe e, aos quinze, o pai. Tal acontecimento o levou a ser criado no Colégio Imperial dos Jesuítas em Madrid, onde estudou Humanidades e foi durante este período que se familiarizou com os clássicos.
Uma vez chegada a hora de ingressar na vida acadêmica, deixa este colégio em Madrid para fazer parte da Universidade de Alcalá de Henares em Salamanca.
Foi em 1620 que P. Calderon de la Barca rompeu com a sua carreira eclesiástica, e regressando a Madrid deixa-se envolver pelas suas ambições no âmbito da criação, e, foi durante este período que começou a participar de certames poéticos. Já em 1625, com apenas 25 anos de idade, ele inicia a sua vida como dramaturgo o que rapidamente é tido como o "dramaturgo oficial da corte".
P. Calderon de la Barca foi autor de várias obras que marcaram decisivamente a história do teatro em língua castelhana. Entre as suas obras encontramos: auto sacramentais, zarzuelas -palavra jamais vista ou lida por mim e que por isso me sirvo do dicionário Houaiss da língua portuguesa para que desta forma eu possa compreendê-la - (Tipo de ópera cômica espanhola, com canções e peças instrumentais entremeadas por diálogos, geralmente baseados em melodias folclóricas e libreto satírico) entremeses, comédias religiosas, de costumes, de amor e ciúmes e, ainda, obras no campo da filosofia.
Dentre as suas inúmeras obras as que se destacam são: El dragoncillo, El laurel de Apolo, El mágico prodigioso, La dama duende, El alcalde de Zalamea, La vida es sueño e El gran teatro del mundo.
Mas a pergunta que me coloco agora é a seguinte: Por quê escrever sobre tal poeta e dramaturgo?
Para ser franca não o conhecia até uns dois ou três dias atrás, foi numa conversa mais intelectual e proveitosa que um amigo me fez conhecer o poema que dividirei com os que doam alguns minutos lendo o meu espaço criativo. É claro que aqui não deixarei um texto científico ou algo do gênero porque a minha idéia inicial foi a de agradecer o conhecimento de um poema tão chamativo e envolvente. A verdade é que as conversas mais intelectuais, ou melhor, voltadas para o mundo dos livros ou da arte sempre nos deixam bons frutos e naquele dia Andrés me deixou o seguinte poema:
Retirado de: "La Vida és sueño"
Segismundo,

És verdad; pues reprimamos
esta fiera condición,
esta furia, esta ambición
por si alguna vez soñamos.
y sí haremos, pues estamos
en mundo tan singular,
que el vivir sólo es soñar;
y la experiencia me enseña
que el hombre que vive sueña
lo que es hasta despertar.

Sueña el rey que es rey, y vive
con este engaño mandando,
disponiendo y gobernando;
y este aplauso que recibe
prestado, en el viento escribe,
y en cenizas le convierte
la muerte (¡desdicha fuerte!);
¡que hay quien intente reinar,
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte!

Sueña el rico en su riqueza
que más cuidados le ofrece;
sueña el pobre que padece
su miseria y su pobreza;
sueña el que a medrar empieza,
sueña el que afana y pretende,
sueña el que agravia y ofende;
y en el mundo, en conclusión,
todos sueñan lo que son,
aunque ninguno lo entiende.

Yo sueño que estoy aquí
destas prisiones cargado,
y soñé que en otro estado
más lisonjero me vi.
¿qué es la vida? un frenesí.
¿qué es la vida? una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño;
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son.

Pedro Calderon de la Barca (Madrid,01/01/1660 a 25/05/1681)


Seguimos sonhando, desgarrados da fúria do quotidiano, seguimos sonhando, pois, somente os sonhos nos deixam seguir vivendo. A partir deles nos desvinculamos do delírio irrinitente daquilo que se apresenta a nós de uma forma tão bruta.
Nos deixem seguir sonhando, nos deixem conhecer aquilo que somos com os nossos sonhos e quando despertados nos deixem seguir acreditando!
Pois a vida é vestígio daquilo que sonhei. E como será que vive aquele que deixou de acreditar nos sonhos?
"Que el vivir sólo es soñar; y la experiencia me enseña que el hombre que vive sueña lo que es hasta despertar". Sim, vamos sonhar e o sonho sempre haverá, basta para isso estarmos e nos sentirmos vivos e livres para sonhar...
É isso vida! Tudo se pode acabar, alterar, sacrificar e domesticar, mas os sonhos, ah, os sonhos estes jamais hão de findar, pois só não sonha aquele que já não é.
"que toda la vida es sueño,y los sueños, sueños son." - Seguiremos como cavaleiros medievais, atentos a todos os detalhes desta vida fugaz, pois, os sonhos seguirão sempre sendo sonhos...E a vida, seguirá sempre, sendo a mistura audaciosa do real com o irreal!
Fantasias, máscaras, disfarces...tudo se faz para continuar o sonho em forma de vida!
Um brinde aos criadores e que não deixem de sonhar JAMAIS!!!!!!!!!!!


Danielle Soares

Porto, 30 de março de 2008

domingo, 16 de março de 2008

A ti

Foto - Heidelberg - Alemanha 01/01/05 By Danielle


Deixem-me ir...
Descobrir o que invade os meus olhos e tomam, imediatamente, conta dos meus sentidos e que preenchem os meus sentimentos vazios.
Deixem-me partir...
Sim, me deixem ir...
Sentir a nostalgia que só sente aquele que parte; aquela nostalgia que nasce a cada segundo quando se aproxima a hora do adeus.
Deixem-me ir...
Desvendar os segredos guardados pelos meus entes já enterrados, segredos soterrados, que se escondem nas profundezas apavorantes da natureza não-tocada.
Sim, me deixem ir...
Deixem que os meus comandos não sejam mais do que os meus pés descalços e desgarrados de todos os laços feitos por mim.
Deixem-me ir...
Enxergar a beleza solitária de tudo o que é exterior a mim... Deixem-me sentir o gosto da liberdade, que enobrece o espírito inquieto.
Deixem-me partir...
Sim, me deixem ir...
Como uma Bem-Aventurada, seguirei os ritmos que toquem o meu ser;
Levarei comigo a mochila pesada de um passado cheio de boas histórias: histórias minhas, aquelas que vivi inteiramente comigo e aquelas que compartilhei com os que cruzaram a minha vida.
Pessoas, lugares, situações, abraços, beijos ou um simples aperto de mãos...
Palavras, olhares, risos, soluços e a simplicidade da inspiração...
Levarei comigo a saudade!
Deixem-me ir...Mas permitam que eu leve comigo a Memória: Memória de mim - a Memória que me confirma viva.
Deixem-me partir...
Conhecer ruas, montes e avenidas.
Mas uma coisa prometo: quando cansada, voltarei para mim, sentada à beira do rio ou de frente para a imensidão envolvente do mar, iniciarei uma nova viagem, uma viagem unicamente dentro de mim e, quando saudosa, tudo voltará. Mas espero que já não seja a mesma, que neste momento escreve estas letras carregadas de desejos de partir.
Deixem-me ir...
Sim, me deixem voar, correr, andar até ao limite, que se inicia a cada passo dado.
Deixem-me...
Vou...Viajar...
Conhecer, descobrir, mergulhar, captar...
Deixem-me...
Me entregar ao estado constante da ignorância; ao vento que invade o meu corpo e vértebras, até que eu reconheça o invisível.
Deixem-me
Viajar...
Me colocar num mundo inabitado e me espantar com o óbvio.
Deixem-me...
Sentir...
A alegria dos Eleitos
A capacidade dos Magos
A descoberta dos navegantes...
Sim, me deixem Ser
Me deixem viver
Deixem-me sobreviver
Deixem-me não morrer...

Sim, deixem-me eterna!!!


Danielle Soares,

Porto, 14 de março de 2008.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Poesias

Entre os quadros expostos
Entre os artistas em palco
Entre os palhaços do circo
E entre toda a multidão
Espero sempre um levantar de mãos
Procuro o riso descabido
Vindo de um espaço desconhecido
Espero ouvir um grito
Quero além de tudo visto
Presenciar o desespero ou o acanhamento
De quem está ali,
Disfarçado diante da vida.
Linda a imagem do desespero
Rio.............Rio.........e.......Rio!
Passa...Passou e não mais rio.
Choro e não mais choro
Grito o grito dos desesperados
Luto a luta dos desgraçados
Jogo o jogo dos covardes.
Olho a vida
Toda ela representada
E não mais choro e nem mais rio
Não mais brinco nem mais grito.
Somente jogo o jogo da vida
Sem fantasia enxergo a vida
Toda vivida...
Sem despedidas, sem chegadas
Somente ela
Intacta e inacabada
Sem artistas e sem espetáculos
Sem plateias e sem aplausos
E nela me guardo
Inteiramente sozinha
Sem saber o meu Princípio
Meio e Fim.

Danielle
Espinho, 02 de fevereiro de 2003.

Poesias



O instante em que toco o meu rosto
O instante em que me afasto do meu corpo
São instantes em que desconheço o meu esboço
São instantes em que me vejo no poço.

Enxergo a escuridão na sua totalidade
Chego a sentir o poço na sua profundidade
E pergunto se é aqui nesse poço
Que terei a chance de me desgarrar da febre da humanidade.

Ainda continuam o poço vazio e o oculto
É tudo o que procuro...

Me vejo então no nada
De tudo que um dia
Foi tudo o que vivi!

Danielle,
Espinho,02 de fevereiro de 2003.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

A busca que não cessa...


Parte I

Por tantos lugares estiveste e por tantos lugares buscaste o que só agora encontraste.
Foram tantas as viagens, as caçadas e em muitas delas procuraste o teu próprio ser. E eu, no mais distante que pude estar, avistei o teu desespero no momento em que deixaste ela escapar, assim como que, um barco que parte em direção ao nada que é tudo, ela partiu, deixando nos teus olhos lágrimas de desespero e gestos de uma criança que roga pelos braços da mãe.
Naquele exato momento criei pernas e segui os teus rastros e ao aproximar-me do teu corpo senti que já estava morto.
E agora sou eu quem chora o choro dos desconsolados e sou eu quem sussurra pelos teus abraços jamais sentidos por mim...
Ela,
Sozinha na imensidão do mar deixa o vento tocar o seu rosto, a brisa apodera-se do seu corpo, enquanto que eu, em terra grito por tua alma.
Desespero, angústia e morte...
Tudo ao mesmo tempo apodera-se de mim da forma mais cruel e arrebatadora. Antes, não sendo capaz de descrever as circunstâncias malévolas e tristes, dizia que era feliz, pois podia mesmo de longe olhar para ti e constatar o brilho e o sorriso que vinham da tua face.
Mas hoje quando penso na morte chego a acreditar que ela é para ti a âncora, enquanto que para mim, ela é a anulação da vida que eu poderia viver.
Ao meu redor a multiplicidade subsiste e não se preocupa se eu parei naquele tempo em que te fechaste diante dela. Felizes seríamos, ou talvez não, se o Devir deixasse de ser Devir quando nós deixamos de querer acordar para um novo dia com o reflexo escaldante de um Dioniso.

Ao olhar para mim vejo marcas de um passado triste e vejo nos meus olhos os lamentos mundanos; enxergo em mim um vazio e quero além de tudo visto o retrato que um dia segui os teus passos sem medo, sem receio e sem esperanças. Segui simplesmente porque senti em mim que um dia acabarias sem ninguém que te pudesse fazer ressurgir.
Diante de tudo sou eu quem hoje fala, chora, sorri e vive por ti, simplesmente, porque a minha ânsia de vida se foi no momento em que o ar sentiu o teu último suspiro.
Não quero que tu morras em mim, não quero que o tempo te leve dos meus pensamentos, tampouco, quero a idéia de que tu já não pertences a isso a que chamamos Mundo.

O que fazer para te ter aqui?
As dúvidas me invadem e são elas que me trazem o sentimento de perda; é a partir delas que consigo perceber que possuo um ser calado, imóvel, frio, ou melhor, um ser que deixou de ser.
Eu sinto a saudade que consola, que te traz até mim e que não me maltrata...Sinto-a porque ela transcende toda a realidade; é a partir dela que me elevo para ti e é por isso que tu és a saudade que gosto de ter, e por mais que ela também seja a consciência da perda eu não deixo de acreditar que ela é a vivacidade da vida já anulada.
Fechada no mundo deixo cair lágrimas sobre a minha face já envelhecida e guardo ainda no peito uma vida que poderia ser vivida se tu estivesses aqui. Como seria boa a vida que eu planejei para mim e para ti!
Em desespero grito:
- Por quê chegaste tão cedo no fim?
- Por quê eu não mais jovem e sem forças devo aguardar a boa vontade da morte?

Me resta chorar e não mais cantar, me resta ainda esta sala vazia, as lembranças, as fotografias, a praia deserta e a areia que acolheu o teu corpo. Eu já não encanto o mundo com a minha música, as notas saem tristes e de tristeza estou coberta.
Por isso não mais canto, não mais toco, só o que quero é te sentir aqui.
Não esqueças que é em mim a tua morada...
Então pode chegar e por favor demora...

Parte II
A perda pode ser tida como a perda de si mesmo ou do outro, não interessa se é mais ou menos, o que importa é que em ambos os casos são perdas que machucam e que matam continuamente.
O caso de particularizar a perda só nos facilita a apreensão da mesma, por isso, escrever sobre ela não significa que conseguimos prendê-la em nós, pois, se assim fosse, ela já não seria perda.
Relatar os dias passados sem a presença do outro torna-se confuso porque tendemos a fundir aquilo que queremos com aquilo que já não se pode ter, e com isso, somos surpeendidos e principalmente iludidos pelo desejo íntrisico de poder diante daquilo que nos é desconhecido.
Como é notável, queremos sempre aquilo que nos escapa, por isso, que quando presenciei a tua morte quis de imediato poder diante de tudo o que me rodeava e gritei para o mundo a minha fragilidade. Em lágrimas e com o corpo trêmulo chamava por ti, e tu já distante, com os olhos fechados e o rosto molhado das tuas e das minhas lágrimas que se confundiam já não compreenderia o que é o choro, o amor e o mundo.
Ali tu deixaste a tua história, ali tu fechaste toda e qualquer possibilidade de futuro. A partir dali foste não sei para onde, foste não sei se sozinho, sei simplesmente, que aqui já não estas.


Danielle Soares
Iniciado em 30/03/03 - modificado e concluído em 18/12/04 - Coimbra

Espero que a leitura do mesmo não levante questões sobre quem é verdadeiramente a Dani..rsrs
Na verdade a minha primeira idéia foi a de um dia (quem sabe) poder escrever um livro de contos, mas hoje, um pouco mais madura, acabei abandonando tal idéia e resolvi retirar alguns trechos mais significativos para dividir com os que se permitem à leitura.
Não que este não venha fazer parte de alguns projetos que ambiciono no mundo da escrita, mas hoje, decidi mostrar um pouco do meu lado criador, que em muitos dos casos é, também, assustador.