Justificativa: Sou alguém que não vive sem ouvir boas músicas e este gosto devo a Neiza Teixeira, pensando bem, não é só o gosto pelas boas músicas que devo a ela, mas também, a escolha em seguir filosofia. Não vou alargar esta questão porque surgiria um outro texto (risos).
Pensar na minha infância é recordar os fins-de-semana que juntamente com minha mãe,Helen e Naiara limpávamos os livros ao som de Bob Dylan, Joe Cocker, Janis Joplin, Led Zeppelin,Lou Reed, Caetano Veloso, Chico Buarque, Tom Jobim, Edson Cordeiro, Djavan, Gil e muitos outros. Pra mim aquele era um momento extraordinário,minha mãe sempre com o jeito extrovertido e doido (no bom sentido) quando empolgada/envolvida no ambiente deixado pelas lindas canções, cantava gritando e dançava (quando lembro rio sozinha) - Jamais esqueci e esquecerei aqueles fins-de-semana em que com prazer tirava as poeiras dos livros e depois arrumava-os de acordo com o tamanho, ali sentia como se me aproximasse ainda mais deles. Ninguém fazia idéia e nem eu mesma de que o gosto por boas músicas e livros surgia em cada fim-de-semana que nos entregávamos àquele trabalho. É engraçado, mas ainda hoje tenho a necessidade de tirar as poeiras dos livros e arrumá-los. Esta aprendizagem é tão importante pra mim que mesmo quando estou na casa que não é a minha e se vejo os livros empoeirados ou desarrumados sinto o desejo de organizá-los...Não pensem que sou uma compulsiva porque não sou.
Os meus já são o suficiente para me ocupar e os da minha mãe é melhor nem pensar no espaço que ocupam...risos
Por ter cultivado em mim o gosto por boas músicas e pela arte em geral, que um dia me veio o seguinte texto:
A música, os instrumentos, a dança, o reprensentar, a escrita, o artista ou, simplesmente, o homem - Um conjunto que se preenche e que se guarda num tempo e espaço; um grupo ou um só indivíduo que só pode reconhecer o seu trabalho quando ouve gritos, assobios, vaias e suspiros de outros homens que se submetem a uma viagem fantástica, confortante, breve ou demorada, triste ou feliz, leve ou pesada.
Apodero-me aqui da figura do músico, uma vez que, ele satisfaz o seu espírito no momento em que uma multidão deixa transparecer a beleza e a empolgação que os seus acordes, a sua voz, os seus movimentos remetem.
Será a arte uma ilusão, uma representação, um alívio, uma saída, um grito, um irreal ou será ela a realidade disfarçada?
Eis uma questão que além de implicar uma outra arte (a da argumentação) requer nada mais que o sentir e o conhecer.
Sentir - o modo como cada admirador da arte encara a mesma, o modo como o espírito humano é tocado na medida em que está envolvido por uma linda canção, uma linda voz ou um só sopro;
Conhecer - conhecer ou ter proximidade com o objeto, com a técnica, com o espaço e com o público.
O sentir e o conhecimento do real.
O homem que possuindo o espírito, sente, e esse sentir lhe possibilita mergulhar em mundos criados no próprio real. No entanto, antes que essa viagem aconteça é necessário o ACERTO, o SUCESSO e o PRODUZIR PERFEITO, pois, nada pode ser só do espírito porque o homem é, como sabemos, trabalho,ou seja, produtor de algo.
A arte, ou demilimitando esse amplo terreno, a música é uma efervescência espiritual, é a elevação do corpo que nem necessita sair do lugar para alcançar o absoluto.
O meu ato de escrever tem por trás a intenção de alcançar o valor que cada manifestação artística causa naquele que se prontifica a direcionar o seu olhar, os seus ouvidos e os seus passos à contemplação de um mundo que antes de estar pronto e acabado foi previamente pensado e trabalhado em função da superação do próprio artista. Tal mundo não pode ter falhas pois nenhum criador admite a sua obra como algo que provém do erro ou do desvio.
A música causa prazer: a voz do cantor, as suas letras, o instrumento que nos preenche e hipnotiza para não falar daqueles que são verdadeiros atores em palco, enfim, este conjunto eleva os homens e, como uma espécie de chamamento, somos levados para uma dimensão em que o tempo e o espaço desaparecem, em que as raças anulam-se, os hábitos desabituam-se e até a própria identidade do sujeito se confunde. São essas elevações do espírito que a arte em geral nos proporciona e que fazem com que nos tornemos Um diante da Multiplicidade, ou seja, o eu é um só eu, ou simplesmente, é um ser que pelo trabalho do outro concorda em desaparecer para que assim possa reconhecer a grandeza do seu semelhante - Criador e Criatura num mesmo mundo, com o mesmo corpo e compartilhando a obra que será sempre visível e julgada: O conhecimento próprio de um bom admirador e a capacidade própria de um Criador - Jamais este terá a chama da vida sem que exista o contemplador - Aqui está a soberania e a dependência mescladas a todo instante. Não devemos esquecer: Mesmo com a força e o desejo de criar, o artista dependerá sempre de olhos não seus que possam elevar o seu próprio Ego. Nenhum dos dois anula-se, pois o Criador prolonga-se no outro ou, simplesmente, naquele que se submete a uma viagem artística.
Mundos tão próximos e tão distantes - O mundo da arte, o mundo que cria, que engana mas que não deixa, por isso, de nos mostrar o real de uma forma tão cruel e sedutora... A arte é, portanto, um mundo que não tem esperança de nada, a não ser, o de estar sempre presente naquele que a produz e naquele que é espectador.
Por isso, pergunto:
- Que nada é esse?
E assim findo a minha inspiração que pode também ser encarada como um momento de me sentir criadora...
Danielle,
Coimbra, 06/10/05
21:08hs.
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