segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Sentir a escrita

Escrever é tornar-se imortal, é deixar-se levar por um momento a um mundo irreal…
É alcançar um instante anteriormente impensado; É deixar os pensamentos fluírem e abraçar as interrogações; É conseguir alcançar o inatingível e ter a consciência de que ele escapa em questões de segundos; É saber expor aquilo que nos faz vibrar a alma; É o momento em que nos anulamos para deixar entrar o desconhecido, os absurdos que se escondem em nós e os desejos de algo que está muito mais morto do que propriamente vivo.
Ser escritor é sentir na alma a vontade de sofrer ou mesmo fingir que sofre…é estar feliz e querer sentir-se infeliz…é estar acompanhado e desejar a solidão…é estar amando e pensar no quanto seria diferente se não houvesse o/um outro que nos faz suspender a própria escrita, simplesmente, porque amar é deixar-se ser modificado pelo outro.
A escrita não deixa de ser uma entrega profunda do ser que se afoga nas suas paixões fazendo nascer coisas belas, pois, é a partir dela que mexemos com o íntimo de nós mesmos e dos outros.

Escrever…
Para se escrever bem é necessário sentir, seja lá o que for – Um homem que caminha, o barulho da chuva que se ouve quando decidimos dormir, um sussurro na rua, um cão que ladra. Talvez, o segredo para se escrever bem seja a simples observação: caminhar na rua e não ver ninguém, mas ao mesmo tempo, conseguir captar aquilo que escapa de todos os outros; observar uma outra pessoa que observa e enxergar nela traços semelhantes ao do escritor e pensar com você mesmo, que esta pessoa poderia vir a se tornar grande mesmo que você nunca tenha sido grande como escritor.

Escrever…
Nos faz sentir capazes, nos faz sentir o gosto do inatingível, nos faz pensar em nós próprios e nos mostra a grandiosidade de cada momento, a escrita nos conduz sem que para isso seja necessário sair do lugar em que estamos. Devido a esse poder que nos sentimos lançados a captar algo que transcende os nossos próprios sentidos.
Nenhum escritor escreve para si mesmo, por isso, é digno de qualquer um de nós imaginar que um dia (distante? Não sei!) poderemos ser lidos por pessoas que nunca vimos e veremos…É assim que enxergamos a recompensa do trabalho que fazemos dentro de nós mesmos – Todo e qualquer escritor carrega em si o gosto do Absoluto, da imortalidade ou da infinitude.

Escrever…
Me causa um sentimento estranho, talvez, um sentimento de dor. Não consigo saber o por que, mas escrever me causa um frio na barriga.
A escrita me torna capaz de ter em mim de uma forma fácil, situações tristes, vidas distantes das minhas, todas com traços do sofrimento.
A tristeza me atrai, mas isso não significa que eu seja uma pessoa triste, afinal, é melhor ser alegre do que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe.
A escrita me faz sentir os sentimentos que nunca foram meus, visualizo rostos e lugares jamais vistos por mim – por isso que todos estamos de acordo que o ato de escrever exige antes de mais, a imaginação e a criatividade e depois é só uma questão de organização das ideias.

Como é estranha essa vontade e capacidade de escrita, só quem a sente é que poderá compreender essa mistura de sentimentos onde há a anulação do seu próprio ser em função da fantasia.
O escritor é aquele que está sempre num duelo entre aquilo que é e aquilo que não é mas que passa a ser.



Danielle Soares
Porto, 16 de Setembro de 2006

3 comentários:

Neiza Teixeira disse...

Dani, li os textos do teu blog e fiquei surpreendida. Me pus a pensar: como é que a gente conhece uma pessoa desde que ela nasce e tão pouco sabe dela?
Como é que somos tão distantes de quem tanto amamos? Talvez esta seja a grandeza e enamoramento do ser humano: ser só, sentir só e lutar para que qualquer coisa seja capaz de destruir esta solidão. Nisto está a necessidade da criação.

Neiza Teixeira disse...
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Danielle Soares disse...

Com a solidão nascem as melhores idéias e, também, as melhores formas de lidar com a vida. Aprendi desde cedo a conviver com a solidão e sei que jamais abriria mão dela, pois,é ela quem me permite voar e criar...
" Me pus a pensar: como é que a gente conhece uma pessoa desde que ela nasce e tão pouco sabe dela?
Como é que somos tão distantes de quem tanto amamos?"
Não sei!!!rsrs
Talvez porque é esse "não saber" e essa distância que faz nascer possibilidades de agir sozinha, por isso escrevo --- acredito que a escrita faz transparecer aquilo que nem nós mesmos sabemos a respeito de nós e mesmo assim continuamos sem saber absolutamente nada.
Quer algo mais complexo e mais lindo que isso?
Te amo mt.