terça-feira, 19 de agosto de 2008

Avanço nas minhas crenças
Reconheço a sua solidão
E me detenho em suas mãos.
O relógio antigo solidifica o tempo
E as suas palavras proclamam Deus.
Ambiciono a fuga.
A minha e a sua fuga...
Quero doar a você a liberdade de um pássaro.
Mas você prefere a prisão,
A prisão que não é só sua, mas de milhões.
Quero fugir,
Agora, preciso fugir...
Você me agarra e me estabiliza
Estou no chão
Enxergo sobre mim o teto sem manchas e longiquo
Abro os braços replicando Cristo na cruz
Sofro em silêncio.
Olho em sua direção e inicio a compreender a sua dor
A tristeza mergulha no seu corpo
E você busca conforto nas suas palavras que te aproximam de Deus.
Eu ignoro, nada ouço
Permaneço jogada no chão
Com os olhos molhados e os pensamentos despertos
Corpo estabilizado e cansado
Tento sair mas você me paralisa
E o chão permanece meu irmão.

Ouço os seus sussurros:
-É o fim...Fim dos tempos...
Sinto medo dessa proximidade com o nada
Messiânicamente você grita:
-Ele está prestes a chegar!
-Se prepare, é o fim!

Quero fugir e mais uma vez ignoro a sua loucura.
Tudo deixou de ter sentido
Já não há razão.
Como criança faminta você grita
E cada vez mais sou invadida pelo medo e desespero
Intacta e paralisada molho a minha face
Com um choro ansioso por consolo.

Lembro você ainda louco
E ainda preso
E inicio por compreender o desassossego.
Aquele que invade mente e corpo
Que anula o antes, nada existe antes dele.
E por isso precisa cuspir o agora
E vomita a sua doença.
Vomita em excesso
Me causando a estúpida sensação
De que tudo em você é vácuo.
Um saco vazio...
Depois daquele vômito
O louco se tornou um saco de pano vazio.

Danielle Soares
Porto, iniciado a 19/08 e finalizado a 27 de agosto de 2008

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A pureza de uma casa

À minha irmã Naiara que no dia 29 completará 22 anos.Te amo...
A casa se encontra suspensa no ar, dá a sensação de que ela não toca no chão. É acizentada, tem janelas compridas, estreitas e espelhadas. É uma casa totalmente simples, solitária e suspensa para que possa alcançar o céu. Ela parece não ter base na terra, em compensação, está de mãos dadas com o azul infinito.
Estranha sensação...
Agora que a observo, os meus olhos se prendem cada vez mais nela, me dando a leve impressão de que ela também me observa gentilmente. Faz- se neste instante a comunhão entre o meu ser e a casa.
É antiga e protegida por um alto e extenso muro cor da lua. É um cinza marcado pelo tempo que guarda nessa cor a sua passagem pelos séculos. Da mesma forma que essa cor me causa a sensação do passado, do antigo ou do simples passar do tempo, as árvores finas e altas, as plantas e as flores colorem a paisagem e remtem à casa o sinal de vida e de presente.
- Que exuberância! Maravilhosa imagem que os meus sentidos conseguem absorver em mim.
Ela está fora do lugar, fora do espaço, porém, é dotada de autonomia e magnitude tão fortes que chega a anular todos os outros prédios e casas que estão a sua volta.
A casa não é pintada, penso até que nunca foi de outra cor a não ser dessa: cor de cimento, cor da pureza, cor da natureza bruta, cor daquilo que permanece virgem e intacto, cor da inocência e do desejo de vir a ser nossa. É uma casa de poucos porque não são todos os que param minutos a abservá-la para compreendê-la na sua crueza.
Olho as janelas e percebo que os detalhes têm ainda vestígios do verde que outrora foi vivo. E, é nesse exato momento, que chego a compreender que ela está coberta de histórias. Apesar da sua simplicidade e de sua forma discreta de estar no mundo, ela protegeu inúmeros corpos, objetos e camuflou infinitos segredos.
Permaneço parada observando a casa cor de cimento...
- Não, cor de cimento não! É cor da lua, porque ela deve ter o tempo do começo, do início e não o tempo do fim ou da transformação.
Do seu espaço ela preenche os meus olhos curiosos e me causa uma reviravolta no espírito, passo a sentir um forte desejo de fazer dela, unicamente minha.
Me imagino fotografando-a, fotos de todos os ângulos, justamente, para fazer dela a minha certeza do tempo que não cessa. Encaixo a paisagem e mentalmente fotografo essa imagem, eternizando-a em mim...
Os meus sentidos analisam tudo o que dela chega...Não captam nada para além daquele Todo que se resume na cor cinza, ou melhor, na casa cor de prata, cor da lua, melhor ainda, cor de lua prateada.
É dia, o sol está forte o que faz da casa ainda mais viva. É uma beleza extraordinária.
Penso na fotografia e nada mais...Devo ainda retornar aqui para levá-la comigo...
Descobri observando-a, o prazer da fotografia.
* No dia 06/08 fui passar a tarde na casa de uma amiga que há 2 meses se tornou "mamãe". A caminho de sua casa me deparei com a paisagem que descrevo no texto, com a tal "casa cinza" e naquele momento deixei de ouvir o que a Mônica falava e passei a viver a imagem que se apresentava diante dos meus olhos, por isso, não podia deixar de registrar e homenagear tal momento: Rico de beleza e de descoberta. Foi exatamente na Rua Monsanto (Porto).
Danielle Soares,
Porto, 06-07 de agosto de 2008
Nota: Devo lá retornar para fazer uma fotografia e expor aqui...no meu blog...

terça-feira, 22 de julho de 2008



I
A noite está calma
Ouço o barulho do mar
Meus pensamentos mergulham
Naquilo que os meus olhos
Não conseguem captar.
Deixo a noite falar...
- Vem! Diz ela.
- Para onde? Respondo.
- Para a noite que te quer fazer mulher!
Disse-me ela.

II
Maliciosa noite mulher,
Gasta os meus desejos
Acende o meu corpo
Me deixa naufragar nos teus segredos.
Me faz profana e consagra
Minha alma fria e calorosa.
Joga o teu véu escuro
E me guarda na tua maldade bondosa.
Me faz mulher
Me deixa morrer
Com o suco dos teus frutos
Que guardam o gosto do pecado puritano.

Porto, 21 de julho de 2008

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Reconhecimento

O quê poderá acontecer?
Desafio essas letras...
Grito com o que me preenche por dentro.
Guardo meus desejos e meus desassossegos.
Te procuro, onde estás?

Papéis sobrepostos
Livros em desordem
Cds espalhados
Uma taça de vinho diante dos meus olhos...

Fotografias pregadas pelas paredes
Rostos felizes
Parada do tempo
Registros de momentos
Hoje, momentos vazios
Congelados naquelas feições ilusórias.

Passa o tempo
O nosso tempo já foi
Estamos ausentes
De histórias.
Envelhecemos as nossas idéias
Nos escondemos no silêncio.
Escravizados pelo tempo
Vivemos...

Vasculho as gavetas
Cartas jurando amor eterno
Anoitece

Mudo de direção
Guardo o passado
Aguardo o futuro
E piso o presente com os pés descalços
Sinto o solo quente, que machuca os meus pés já calejados.
Recolho a folha que cai

Solitária folha
Folha já morta
Que traz vida aos meus olhos

Vou seguindo
Na noite que chega calorosa
Sinto o ar de tudo tocando o meu rosto
Sorridente
Me jogo nela
Me derreto com ela
Sonho a partir dela
Me fecho para ela.

Te reconheço
Distante de mim
Te vejo a caminho dela
Te deixo ir
Mudaste?

Caminhas lentamente
Roupas largas
Cabelos ao vento
Bela a luz que vem da lua
Minhas pernas querem te seguir

Mas não, tu já não és o que conheci
Fico onde estou.
Permaneço ali, naquele canto pouco notável.
Escrevendo os meus delírios
E retirando da loucura
A real certeza de ser humana.

Porto, 18 de julho de 2008

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Homenagem

À minha mãe: Neiza Teixeira

Ronda para adorar o que queimei

Há livros que lemos sentandos num banquinho
Diante de uma carteira escolar.
Há livros que lemos andando
(E é também por causa do formato);
Uns são para as florestas e outros, para outros campos,
Et nobuscum rusticantur, diz Cícero.
Alguns há que li na diligência;
Outros, deitado no fundo dos celeiros de feno.
Há os para fazer crer que temos uma alma;
Outros, para desesperá-la.
Há os em que se prova a existência de Deus;
Outros, em que não se consegue fazê-lo.
Há livros que não é possível admitir
Senão em bibliotecas particulares.
Há os que receberam elogios
De muitos críticos autorizados.

Alguns há em que só se trata de apicultura,
Que certas pessoas acham algo especializados;
Noutros fala-se tanto da natureza
Que não vale mais a pena passear, depois.

Outros há que os homens sensatos desprezam
Mas que excitam as criancinhas.

A alguns chamam ontologias
E neles incluíram tudo o que de melhor se disse a propósito de tudo.
Há os que desejariam fazer-nos amar a vida;
Outros depois dos quais o autor se suicidou.
Alguns semeiam o ódio
E colhem o que semearam.
Alguns, quando os lemos, parecem brilhar,
Carregados de êxtase, deliciosos de humildade.
Há os que amamos como irmãos
Mais puros e que viveram melhor dos que nós.
E os há impressos em caracteres extraordinários
E que não compreendemos, mesmo depois de tê-los estudado muito.

Alguns há que não valem um vintém furado,
Outros alcançaram preços consideráveis.
Alguns falam de reis e de rainhas
E outros de gente muito pobre.

Alguns há cujas palavras são mais suaves
Do que o ruído das folhas ao meio-dia.
Foi um livro que João comeu em Patmos
Como um rato; mas eu prefiro as framboesas.
Isso lhe encheu as entranhas de amargura
E ele teve depois muitas visões.


Não basta ler que as areias das praias são doces; quero que meus pés nus as sintam...É-me inútil todo conhecimento que uma sensação não precedeu.
Nunca vi nada docemente belo neste mundo sem desejar desde logo que toda a minha ternura o tocasse. Amorosa beleza da terra, maravilhosa é a inflorescência de tua superfície. Ó paisagem em que meu desejo se abismou! Região aberta por onde passeia a minha busca; aléia de papiros que se fecha sobre águas; caniços debruçados no rio; aberturas das clareiras; aparecimento da planície no vão das ramagens, da ilimitada promessa. Passeei nos corredores de rochas ou de plantas. Vi desenvolver-se a primavera.
VOLUBILIDADE DOS FENÔMENOS
Desde esse dia, cada instante da minha vida adquiriu para mim o sabor de novidade de um dom absolutamente inefável. Assim vivi numa quase perpétua estupefação apaixonada. Alcançava muito depressa a embriaguez e comprazia-me em andar numa espécie de aturdimento.
Por certo quis beijar tudo o que encontrei de riso nos lábios; quis beber o que encontrei de sangue nas faces, de lágrimas nos olhos; e morder a polpa de todos os frutos que dos galhos se inclinaram para mim. Em cada albergue uma fome me saudava; diante de cada fonte uma sede me esperava – uma sede particular diante de cada uma; - e almejara outras palavras para marcar meus outros desejos
de marcha, onde se abria uma estrada;
de repouso, onde me convidava a sombra;
de nado, à margem das águas profundas;
de amor ou de sono ao pé de cada leito.
Botei intrepidamente a mão em todas as coisas e acreditei ter direitos sobre cada objeto de meus desejos. (Demais, o que almejamos, (...), não é tanto a posse, é o amor.) Que toda coisa se irise diante de mim! Que toda beleza se revista e se matize de meu amor!

Livro: Os Frutos da Terra
Autor: André Gide.


Aos 25 anos de idade, senti a necessidade de reler o livro já citado. O quê significa, para mim, reler Os Frutos da terra?
Significa recordar, lembrar, resgatar, recolher ou colher parte de mim e parte da postura que resolvi assumi diante da vida e dos que se aproximam de mim. É certo que aos 13 anos de idade (Primeira vez que li este livro) não o compreendi na sua profundidade, mas lembro, que passava horas fechada no quarto lendo e transcrevendo os trechos que me arrepiavam. Sentia uma alegria muito forte sempre que eu me desligava de tudo e me entregava àquela leitura: Lia em voz baixa e em voz alta, era como se naquele momento eu brincasse e desafiasse as letras, o autor e trouxesse para o meu lado a dona dele. Aquele "ritual" tinha o poder de me devolver imagens que me eram tão comuns: Minha mãe entregue aos livros. Era maravilhoso ler e puxar pela memória - Recordar a infância e sentir as paisagens que André Gide transcrevia de forma brilhante e sedutora nas páginas amareladas do livro Os Frutos da Terra.

Olhava aqueles livros e me sentia chamada por eles e só eu posso saber as horas que eu dedicava a eles, limpava-os, organizava-os, ao mesmo tempo, que eu os descobria. Não poderia haver satisfação maior naquela fase da minha vida...
lembro que a primeira coisa que me chamou a atenção no livro foi a capa, ou melhor dizendo, a sua anti-capa, que era preenchida por flores vermelhas de talos verdes muito finos, neste momento não recordo o nome delas, mas tive a satisfação e a sorte de vê-las pessoalmente, e quando as vi, automaticamente, lembrei daquela anti-capa que já não existe. Foi numa “cidade” pequena da Itália, especificamente, em Parona, era primavera, passeava na companhia de um amigo e da sua cadela Chicca, ainda lembro aquela tarde, porque me deu a chance de ver, exatamente, a imagem que sempre admirei na minha adolescência e juventude, não compartilhei com ninguém aquela visão, afinal, era unicamente meu o prazer de fazer real Os Frutos da Terra.
Como inicialmente escrevi, releio este livro, mais madura e com o conhecimento mais alargado, começo por compreender muitos dos meus comportamentos e a ambicionar ainda mais o conhecimento do mundo.

Quem me dera se todos os jovens dedicassem alguns minutos à leitura, e se todos tivessem a chance de ter como espelho uma figura como a que tive! Eu tenho a certeza que eu não poderia ter me tornado outra pessoa senão essa que sou, desde de muito nova descobri o prazer da leitura e é como se cada vez mais eu precisasse disso para viver, é como sentir um sopro de vida, mas não é só ler, é interpretar e fazer da leitura e do conhecimento a sua arma ou escudo.

Ler siginifica crescimento, significa despertar, significa ser curioso, significa questionar, significa viajar e tocar em solos não seus, significa sonhar de olhos atentos e viver perigosamente, porque ler é permitir a invasão do outro no eu. Até que ponto permaneceremos os mesmos após esta invasão? Resposta absolutamente subjetiva e íntima do leitor.
Ler é ser, ou melhor, ser implica ler. Pena que falta muito para termos uma sociedade mais voltada para o sabor da leitura.
Continuo e continuarei lendo sempre Os Frutos da Terra, pois, como todos os que me conhecem muito bem, sabem que esteja eu onde estiver, ele estará sempre comigo. E hoje sei que foi com André Gide que aprendi a sair de casa num dia de sol sem destino – Não há coisa melhor do que caminhar longos minutos e chegar a beira de um rio ou a beira mar na companhia de um bom livro. Não faz muitos dias, caminhei muitos minutos absorvendo o sol e fui parar num daqueles bancos que preenchem a Ribeira do Porto e lá me entreguei à leitura desse livro e à observação incessante do curso do Rio Douro. Me senti totalmente escrava daquelas letras e daquela linda paisagem. Fui levada a colher ótimos frutos naquela tarde ensolarada, foi uma experiência que me fez sentir a leitura muito mais saborosa...

Os Frutos da Terra é um livro que revigora e que chama à superfície a sensibilidade humana e que nos faz ainda mais atentos para a vida.
Me resta justificar o porque deste trecho dedicado à minha mãe. Penso que não é difícil entender os motivos que me levaram a tal atitude. Ela era, até então, a única dona do livro, mas, a partir dos meus 13 anos de idade adotei o meu primeiro filho (Os Frtutos da Terra) e não tem mais como eu abandoná-lo ou esquecê-lo. Foi a mais brilhante descoberta que fiz quando sozinha pensava e sentia saudades da minha mãe...
Obrigada mammy pela aprendizagem mais rica e mais valiosa que tenho.
Ia esquecendo, mas foi também esse livro, que me fez escolher o caminho na filosofia, pois, se foi a filosofia que me retirou por alguns anos a presença da minha mãe, foi ela, também, o elo de ligação entre mim e a filósofa que mais admiro: Neiza Teixeira.
Porto, 11 de julho de 2008

terça-feira, 24 de junho de 2008

"A Dream"

Te vi e uma luz se abriu naquele espaço pequeno e obscuro.
Nos olhamos, e os teus olhos claros sugaram os meus olhos escuros.
Sorrimos e o teu sorriso brincou com a minha timidez.
Longas horas nos vigiamos de longe...
A música era a certeza de que dividíamos o mesmo espaço,
Ela nos distraia e mexia os nossos corpos tombados.
Todas as outras pessoas estavam mergulhadas no álcool e naquela mágica noite. E nós dois, completamente entregues àquela distância pequena.
Me chamavas com o sorriso e eu não tive a ousadia de responder ao teu sorriso de menino pedinte.
Disfarçadamente me envolvia com o meu grupo de amigos e tu, ao contrário, demonstrava fugir dali.
Largos minutos nos olhávamos e inesperadamente estavam os nossos olhares parados na mesma direção.
Eu não sabia quem tu eras, sabia, unicamente, que não eras dali. Sentia curiosidade, mas me escondia entre os amigos felizes e imersos na noite que guardava mistérios.
Vieste na minha direção, chegaste, sorriste e falaste...Uma língua que não era a minha.
Sorri...
Timidamente olhei os teus olhos nos meus, senti vontade de te ter comigo, de te deixar no meu anonimato, solto no meu esconderijo.
Em poucos segundos eu estava falando a tua língua, mas a música estava ainda mais alta e as pessoas ainda mais contagiadas pela euforia deixada pelo DJ na pista. As nossas vozes se perdiam naquela atmosfera de verão.
Não compreendia o teu nome e tu, constantemente, repetia o meu.
As luzes do bar se centraram em nós, e eu passei a te enxergar de várias cores e ficavas ainda mais chamativo. Repentinamente, estávamos a sós no centro da pista, envolvidos pela curiosidade.
Sorrimos, nos olhamos e nos aproximamos...
Já não fazia sentido falar, por isso, os nossos corpos leves se moviam com destino ao mar.
Sensações: Areias frias, lua cheia e companheira, escuridão transparente e solidária que agregava o mistério de uma noite de verão.
Já não havia o bar, só os nossos corpos, no meio da praia e banhados pela claridade da lua.
Belezas diferentes com comportamentos iguais.
Nos conhecemos e nos despedimos ali...
Lá, naquela noite, que cheirava a amor momentâneo.

Danielle Soares
Porto, 20/06/08

sexta-feira, 20 de junho de 2008

"Eu sou assim"


Eu gosto da minha liberdade,
Adoro saber que eu não tenho um limite...
Sou fascinada pela idéia de que tudo é normal,
Habitual...Que nada está fora do mastigável e tolerável.
Nada me assusta, me choca, mesmo que eu, hipocritamente,
condene.

Sinto essa febre de sair, de sumir sem me trair
Quero ser levada por esse sentimento de poder
Sou assim, gosto de sumir, gosto de me sentir só!
Ningém pode me prender...

Me sinto liberta e gosto dessa sensação.
Talvez, eu tenha já sido um pássaro sem contato
Com fobia dos humanos. O único humano que aturo
Hoje sou eu...

A vida do artista me agrada
Admiro músicos que atingem o transcendente
Quando levados por um solo.
Solo de sozinho, de intocável e de poder.

Me sinto realizada na minha liberdade
No meu oculto
Apareço quando quero e sumo quando menos espero.
É isso que me atrai em mim

Por quê sou assim?

Danielle Soares
Porto, 20 de junho de 2008

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Viagem ao paraíso




Haviam muitas pessoas, na sua maioria, eram jovens que sobreviviam de um trabalho ingrato e árduo. Aquele sol latejava em nossas peles, a sua força era tanta que era necessário fechar sempre mais um pouco os olhos para que se pudesse enxergar para além do possível.
Suávamos de uma forma excessiva, sentíamos odores.
Aquele lugar era fedido e feio. Esburacado, molhado e preenchido por buracos cheios de água amarelada daquele barro pegajoso e nojento. Era um lugar que jamais pensávamos fazer parte, mesmo que fosse por uma hora. Pessoas trabalhavam e mendigavam o que comer, mas em suas faces era forte o desejo de evasão. Mas como sair daquele caos, sem antes, pisar naquela terra suja e esbarrar com aquela gente suada que transpirava um odor particular e expansivo?
Este era o desafio.
As pessoas gritavam, nos abordavam de forma a nos amedrontar e nós ali, jogados no inferno. Sem saber como reagir, nos reservamos num canto, já com as passagens em mãos com dentino ao paraíso. Daquele lugar começava o nosso silêncio, e a partir dali passámos a observar as pessoas que chegavam de terras distantes, mas em nenhum momento, dividimos as nossas impressões, mesmo que o outro fosse "nós". Nos fechamos e convivemos em corpo. A estranheza era a de que todos os que desembarcavam ali, estavam crentes de atingir o paraíso, e nós convictos de que estavámos prestes a sair do inferno.
Mas será que não éramos nós os enganados? Enganados ou não, o certo era que todas elas pareciam estar em sintonia com aquele espaço que abominávamos. As pessoas escorriam suor por toda a pele, vestiam roupas desajustadas, elas não andavam, mas, de forma grotesca arrastavam as sandálias, pareciam animais pesados e próximos da morte, elas gritavam umas com as outras, como se todos nós, estivéssemos a caminho da surdez e, como se não bastasse, muitos vinham com os seus pequenos rádios pendurados nos ombros, e despertavam o mundo com aquelas músicas choradas ou aceleradas, com vozes sufocantes e homicidas. Era engraçado, e o pior era que todos os demais, quando empolgados com uma ou outra música soltavam o berro, berravam e nos destruíam.
- Como é bruta a imagem que guardo daquele espaço!
Imersos ali, contávamos os segundos para partir, eis que surge um ruído, uma buzina estridente que anunciava a chegada do salvador e, para nós, o salvador era o navio que nos retiraria daquele lugar detestável. Ele se aproximava lentamente e trazia naquela lentidão a esperança de refúgio e entrega ao desconhecido. Era um navio de pequeno porte, preenchidos pelas cores brancas e vermelhas e os nossos sonhos e anseios somavam com a visão dos nossos olhos e não das nossas costas, queríamos olhar para frente e abandonar o passado. Os nossos sonhos revigoravam em nós e traspiravam em nossos poros molhados daquele calor insuportável...
Aproximava-se mais ainda a hora da partida, não falávamos um com o outro, não nos olhávamos, nos deixávamos ser embalados por aquela gente habituada ao ritual de uma viagem fluvial - Éramos formigas no meio de girafas agitadas e decompostas, o certo era nos deixar levar até atingir o interior do navio. Afinal, o que queríamos era sair dali, não importava o destino, mas era urgente nos despedir daquele lugar descontinuado.
Com dificuldade, conseguimos encontrar o nosso canto no navio e a partir dali esquecemos a figura de um e outro, esquecemos todas as centenas de pessoas que ali estavam, discriminamos até nós mesmos, pois o nosso propósito era o de aproveitar ao máximo as paisagens e as diferanças que aos poucos invadiam os nossos olhares.
Dois jovens curiosos e ansiosos, que buscavam o enriquecimento no espírito, cada um do seu jeito, absorvia a natureza e mergulhava nas paisagens selvagens e sedutoras. Os nossos olhos se contentavam e os nossos pés a cada avanço, criavam raízes no novum. Era tanta a diferença que nos guardamos na nossa individualidade e solidão. Comportamentos necessários para ultrapassarmos o limite do corpo e nos centrar na infinitude que os nossos olhos acalçavam.
Como reagir a tal afastamento?
Pergunta maldita. Resposta evasiva.
Não queríamos perguntas...O nosso desejo era viajar.
Viajámos imersos na natureza, fomos os mais autênticos observadores, fosse como fosse, observámos na complexidade a vida escondida de pessoas esquecidas, pessoas que viviam à beira daquele rio cheio não só de água, mas de riqueza e vida. Quanta contradição! Um rio tão vivo, rodeado de gente tão pobre e com a tristeza que sobressaltava em suas faces abatidas e sofridas.
Passei a sentir a vida daquelas pessoas em mim e a cada instante eu era invadida por um sentimento de retorno, mas a viagem era longa e quando via, aquela gente havia ficado para trás: Pobres e esquecidas, aproximavam-se da beira do rio quando o navio invadia a realidade delas. Viviam em casas humildes, feitas de barro, palha ou madeira, apesar de as enxergar tristes e esquecidas, elas gratuíta e satisfatoriamente, acenavam para os passageiros do navio. Sorriam um sorriso pleno de verdade. A imagem era tão extraordinária que muitos dos passageiros suspendiam os seus braços e fechavam e abriam as suas mãos ou guiavam os braços para a direita e esquerda, reproduzindo assim, o gesto do tchau. Era uma forma de recompensar aquela beleza perdida na imensidão daquela floresta. Fazíamos parte daquela novidade tão rotineira para elas.
Seguíamos em frente e repetidamente a realidade daquelas pessoas surgiam diantes de nós, até que se foi tornando habitual respondermos aos seus acenos. A partir de um certo momento, tudo foi se tornando tão normal. Tudo era tão igual: Casas de palhas, barro ou madeira escondidas numa imensidão verde que só terminava quando a terra abria espaço para o rio barrento e imenso, animais gordos e bonitos também preenchiam aquele mundo extraordinário. Crianças corriam e se jogavam nas águas daquele rio misterioso. Não pareciam sentir medo de nada, elas se divertiam gratuitamente, gritavam uns com os outros, corriam uns atrás dos outros, sorriam um sorriso aberto e envolvente - Eram felizes, despreocupados com o depois; viviam a infância na sua mais total pureza. Pareciam uns botos tucuxi, pois, nadavam e passavam longos minutos em baixo da água e sem esperarmos, vinham à superfície com o sorriso estampado em seus rostos. Lindas crianças, felizes seres que nos faziam sonhar com a criança que um dia fomos.
Tudo estava perfeito, tudo nos hipnotizava de tal maneira, que passámos a acreditar no paraíso. Que engraçado, nos sentíamos no paraíso, mas não fazíamos parte dele, afinal, em nenhum momento saímos do navio com destino à realidade daquela gente. Éramos somente espectadores do paraíso e, por isso, não pisamos, em nenhum momento, o chão daquelas terras.
Aproximava-se a noite e os sons dos bichos e da escuridão surgiam cada vez mais fortes, sentíamos medos e a curiosidade nos dominava. Como forma de viver tudo ao máximo, separamos duas cadeiras e dali tentávamos enxergar a noite escura. Tamanha era a a escuridão que se tornava impossível ver vida para além do barco, nos restava, então, continuar ouvindo os ruídos dos bichos e o barulho deixado pelo navio.
Cada vez mais as horas passavam e todos os outros viajantes procuravam um lugar para deitar os seus corpos cansados e queimados do sol que fizera, e nós, éramos levados pela curiosidade, o que nos permitia conhecer os segredos daquele navio, andávamos entre as pessoas adormecidas, subíamos as escadas até chegar ao topo e de lá, aguardávamos ansiosos a luz da lanterna dispensada pelo navio, mesmo que durasse menos de dez segundos, era o suficiente para nos fazer mergulhar no mistério da noite em pleno Rio Amazonas. Infelizmente, a noite continuava a guardar os seus mistérios e não estávamos completamente prontos para admirar a beleza que se guardava naquela escuridão solitária.
O frio chegava, a noite nos expulsava e se aproximava o cansaço, mas não era justo fecharmos os olhos e os sentidos, por isso, nos entregamos à leitura: Devoramos livros, criamos histórias em nossoas mentes, procurávamos olhar para o nada daquela noite escura e quando esgotados, fechamos os nossos olhos como forma de deixar a noite com a sua total liberdade.
Nos deixamos embalar pelos nossos sonhos, dormimos colados um ao outro, sem dizer uma palavra, sonhamos juntos.
Ressurgia um novo dia, o sol ressurgia ainda mais quente, vivo e ardente. Cumprimentamos toda a paisagem a nossa volta, e mais uma vez, estávamos a esquecer de nós. Estranho comportamento, vivemos a nossa mais total individualidade, como se o habitual deixasse de nos ser querido, só o que nos importava era viver o novo de forma completa e sem companhia - As impressões eram de cada um e não dos dois. Foi este o nosso pacto e desde dali, que cada um procurou e foi fiel aos seus caminhos.
Finalizamos a nossa aventura; cumprimos o nosso plano; fizemos o nosso trato e a partir daí nos perdemos em vidas distantes das nossas. E agora, como é gratificante contemplar o paraíso sem fazer, totalmente, parte dele!
Os nossos sonhos permanecem em continentes diferentes e sonhamos ao lado de pessoas que já não somos nós, mas nada disso importa, afinal, continuamos com vida e com os olhares para o horizonte, para o infinito desejado.
A lembrança daqueles homens e mulheres ainda me assaltam, bem como, os sorrisos doces daquelas crianças - E são estas recordações que me estimulam a seguir viagem: Sozinha ou não continuo com o forte desejo de descobrir e mergulhar naqueles sorrisos inocentes e repletos de sonhos.
Sem darmos adeus um ao outro, seguimos. Atingimos o fim ou será o começo?
Olho a mesa que agora estou e me deparo com a minha nova passagem, estou de partida, mais uma vez...Sairei do inferno com destino ao paraíso?
Paciência, logo se saberá.

Porto, 10 de junho de 2008
Da varanda do apartamento, admirando o maravilhoso pôr-do-sol de primavera. A noite chegou ainda mais escura e eis que entra pela janela uma borboleta. Na minha terra se costuma dizer que é anúncio de sorte/dinheiro/boas notícias. Será? (risos)

,


quarta-feira, 11 de junho de 2008

SOLIDÃO INQUIETA


A sala está preenchida por uma voz, o som da guitarra e do violão hipnotizam os pensamentos, e a voz me chama a seguir aqueles instrumentos repletos de sentido.
Estou sonolenta, páro de escrever e fecho os olhos por segundos, volto a abrí-los, me viro sobre o sofá e passo a enxergar para além da sala.
O tempo está claro, mas é uma claridade que sufoca porque o sol está, ao mesmo tempo, que parece ausente...É estranho descrever esse tempo: É um calor, melhor, é um vestígio de calor. Sim, é uma indecisão, é algo que me foge. Volto a me concentrar na sala, que é de uma claridade absorvente.
Ouço a música, olho essas letras e a música acaba, ouço aplausos e a guitarra volta, a voz ressurge e eu olho os objetos, todos imóveis. Começo por jogar vida neles mas não reagem - Estão mortos no seu fim decorativo.
Me movo, me canso, me ignoro. Penso.
Os pensamentos não param e fico sonolenta. A música volta ainda mais forte e desperto.
Ouço um barulho vindo de fora.
Um helicóptero sobrevoa a cidade. É verde. A cidade está intacta e não repara naquele pássaro de ferro que lhe vigia.
Novamente os plausos, um ruído incomodativo sufoca. Metrô, que calculadamente me enche os ouvidos com esse som irrinitente.
Procuro me centrar na música, na melodia e me detenho no som da bateria, na pulsação que marca o tempo. O tempo está lento.
O metrô chega incomodando.
Esqueço a música e fico sonolenta. Meus braços doem, as letras começam a sentir a feiura e por isso, tornam-se disformes, quase como que o tempo, elas atingem o nível da incompreensão.
Apoio o meu braço direito sobre o sofá, para que assim, as letras regressem ao estado do entendimento aos olhos dos que sentem o desejo de folhear este caderno repleto de inspirações.
A sala ecurece, o pouco sol que havia fica ainda mais encoberto e a música acaba...Surgem os aplausos e assobios e o braço continua a reclamar da dor.
Acho que quer parar de escrever...Logo agora que surge na sala uma das mais belas canções: Running on Faith de Eric Clapton.
Com licença...Me absorvo na música.
A sala passa a ser música e eu continuo sonolenta, deitada sobre o sofá - A voz me domina.
Me entrego aos instrumentos e à música em harmonia.
O tempo continua escuro e indeciso e eu durmo ao som da melodia abstrata e transformada em mim. Não, o sono não foi o suficientemente forte. Inesperadamente, um cheiro vindo da rua me assalta, penso: É cheiro de chuva! Me viro novamente no sofá, de forma que eu possa olhar para a varanda e passo a enxergar nos vidros pingos finos. Sim, confere, é cheiro de chuva! E como adoro esse cheiro de terra molhada...Me entrego a ele e volto à minha infância, que com muita frequência, sentia com prazer este cheiro tão forte e significativo para mim.
A música ainda não acabou, mas agora, tudo está perfeito: A voz, a sala, a indecisão do tempo, os instrumentos e esse cheiro de uma particularidade singular. Engraçado, o sol ressurge com todo o seu poder iluminatório. Já não estou só...Tudo está comigo, agora.

Danielle
Porto, 10 de junho de 2008

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Neblina





Hoje renasceu das cinzas, ou melhor, da lixeira do nosso tão ilustre Bill Gates, aquele que muito me punha para pensar e refletir sobre diversas experiências empreendidas, aquele que traz consigo um lugar que não está situado num tempo e espaço.
Oh, como me sinto feliz!!! Ganhei outra vez a vida de pessoas que pertencem, por agora, unicamente a mim...Sim, falo de ti Neblina! Imagino o teu sofrimento, o teu forçado anonimato, dentre outros textos, imagens, rascunhos e pobres deletados escritos pessoais. E se não fosse aquela lixeira? Se tivéssemos o desprazer de nunca nos reencontrarmos?
Neblina, Neblina...Abandonado Neblina, fizeste jus ao teu nome, pois por longos dias fostes o mais autêntico mistério, te escondeste na invisibilidade de uma tela, como sofreste de solidão, de desprezo e de saudades da tua verdadeira ilusão - a de ser real para aquela que tanto pensou em ti com lamento e tristeza de não conseguir ser fiel às palavras que outrora estavam submersas no oculto.
Conheceste a morte Neblina e por que não me ajudar a desenvolver em ti as histórias com as quais cruzaste? Como senti saudades do meu primogênito, sim, tu és para mim o meu primeiro filho e não há dor maior no mundo do que a de perder o que nasce de nós...
Vamos, vem comigo descobrir Neblina...

Era um dia cinzento e escuro assim como todos os outros dias...

Como senti a tua falta e agora não sei mais como continuar a descrever a felicidade que sinto em poder te conceber e comtemplar novamente.
Bem-Vindo Neblina...Apodere-se de mim de uma forma completa e dominante. Sempre fui tua apesar da tua forte personalidade e continuarei sendo tua até atingires a tua glória, então, mãos as obras, porque muito tenho para te fazer conhecer a tua continuação.
- Não, não podes ir assim, aliás, não podemos ir assim, sem antes agradecer a uma pessoa que fez com que tudo acontecesse novamente: Matteo Circosta.
Tens razão, se não fosse ele, talvez jamais poderíamos nos sentir denovo, provavelmente, nem mais serias tu Neblina.
Matteo, esse texto foi também uma forma de eu agradecer a você a preocupação e a dedicação em fazer ressurgir da sua lixeira o meu projeto, de um dia, quem sabe, me tornar autora de um livro misterioso e cheio de nevoeiros...
Acho que já nem preciso escrever que foi exatamente na lixeira do Matteo que Neblina deu um tempo, mas foi só um tempo, afinal, ele voltou pra mim e quiçá, daqui um tempo, para todos...


Danielle Soares,
Porto, 04 de junho de 2008
23:18hs